Crítica | Sem Evidências

Crítica | Sem Evidências

Antes do defectivo Atom Egoyan (O Preço da Traição) lançar sua versão, Sem Evidências (Evil’s Knot), sobre o caso real de West Memphis Three, a história já havia sido reportada em três documentários, chamados Paradise Lost (1996, 2000, 2011), de Joe Berlinger e Bruce Sinofsky. O assassinato de três garotos de oito anos no Arkansas, em 1993, se tornou um caso famoso nos Estados Unidos e levantou discussões pela falta de clareza da investigação policial e durante o julgamento.

Na ficção, a narrativa ganha um ritmo arrastado e pouco efetivo. A história se divide entre o olhar de Pamela Branch (Reese Witherspoon), mãe de um dos meninos mortos, e o do detetive particular Ron Lax (Colin Firth). A mulher sofre com a perda do filho, enquanto o profissional pesquisa as disparidades entre depoimentos e situações. Um dos problemas do filme é sugerir várias proposições sem concluir ou analisar nenhuma delas. Egoyan já tem no currículo um filme semelhante e bastante enjoativo sobre o caso de um acidente de ônibus escolar que matou diversas crianças, O Doce Amanhã (1997). Aqui, ele repete a narrativa modorrenta.

Se lermos os artigos sobre o caso, conseguimos ter uma ideia do que ocorreu e o tamanho de sua proporção, com o envolvimento de grandes artistas, como Eddie Vedder, Patti Smith e Johnny Deep. Eles realizaram shows beneficentes com o objetivo de arrecadar dinheiro para a perícia, deixada de lado de forma displicente pela polícia local, e desfazer o esteriótipo dos fãs de rock como representantes do mal, como sugeriu o julgamento do caso.

Sem Evidências consegue pelo menos apresentar as tramoias e a bagunça dos poderes judiciário e executivo na história. Representados de forma caricata, os policiais fazem de tudo para se livrar o mais rápido possível do homicídio e encontram a saída perfeita na figura dos adolescentes desajustados Jessie Misskelley (Kristopher Higgins), Jason Baldwin (Seth Meriwether) e Damien Echols (James Hamrick). O preconceito reina soberano na cidadezinha dos Estados Unidos.

Os jovens, entre 16 e 17 anos, usavam roupas pretas, ouviam heavy metal e eram adeptos da religião Wicca. Para os moradores, portanto, potenciais assassinos e molestadores de crianças. Os discursos eclesiástico sobre a punição divina induz o júri e a população local. Na verdade, o estereótipo e a inadequação social dos garotos são os seus maiores crimes, mas a busca pela vingança e moralismo cegam centenas de pessoas do local.

Com falidos advogados de defesa, o futuro dos adolescentes caminha para o final trágico dos teatros gregos. A busca pela inocência dos rapazes parece ser uma alternativa interessante no roteiro, entretanto, o herói narrativo, na pele do detetive particular, apenas ronda os eventos sem nunca ser escutado ou levado a sério. Suas teorias se tornam apenas palavras ao vento. A partir da metade da história, a mãe passa de vítima para a única pessoa lúcida no tribunal a enxergar as falhas escancaradas.

A mídia faz seu papel sensacionalista sem se preocupar com o teor investigativo ou em buscar respostas verdadeiras, pelo menos no longa. O final soa com um falso alerta de resolução, contudo, até as explicações em texto no pós-filme são desleixadas a ponto de deixar o espectador mais confuso e decepcionado com a produção.

O acontecimento merece atenção, no entanto, precisava ser tratado com mais cuidado, menos parcimônia e mais agilidade. Sem Evidências é maçante e sem nenhum personagem que inspire emoção ou desenvolva uma relação com o espectador. Os protagonistas Witherspoon e Firth estão mornos e sem criatividade. Tudo é muito metódico e não desperta interesse, a não ser pelo caso verdadeiro, mas não por causa deste enredo fraco.

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