Crítica | Azul é a Cor Mais Quente

Crítica | Azul é a Cor Mais Quente

Poucos filmes conseguem mexer comigo a ponto de eu acreditar em cada palavra, olhar ou expressão do personagem. A obra-prima de Abdellatif Kechiche tem esse poder. Azul é a Cor Mais Quente (La vie d’Adèle) é capaz de te prender desde o primeiro momento, com uma discussão sobre literatura na sala de aula, até a última lágrima da protagonista Adèle (Adèle Exarchopoulos). De longe é uma das melhores produções do cinema deste ano e, após ter vencido a Palme d’Or em Cannes, merecia levar o Oscar de Melhor Filme Internacional, infelizmente não está indicado.

Com uma perfeita linha de direção, o filme chama a atenção dos espectadores para os detalhes na tela, como um olhar faceiro, bocas mastigando espaguetes e um sorriso sem graça. Todas essas situações comuns são apresentadas de forma singular, exaltando as peculiaridades da vida da protagonista. Suas emoções e sensações são captadas de maneira delicada e engenhosa para o deleite do espectador. É difícil não ser submerso pela mundo da jovem Adèle durante as três horas de projeção.

A proposta de Kechiche é descortinar as vontades e fraquezas da menina e a atriz Adéle Exarchopoulos corresponde às expectativas perfeitamente. A jovem de 20 anos convence como uma garota de 15, 18, 20 até os 30 anos ao longo da história, sua transformação de adolescente a mulher é observada sutilmente. A transição aparece no comportamento, na postura e na comunicação da personagem, sem necessidade de nenhuma caracterização.

A veracidade presente em todos os momentos, de um simples bate-boca entre colegas de turma até uma conversa madura sobre relacionamento, nos seduz. Nada parece aleatório ou visto como uma fantasia do roteirista. Não conheço o graphic novel que deu origem a história, mas o enredo montado é perfeito, não limita tempo-espaço, mas deixa sempre o espectador de uma forma ou de outra a par da temporalidade decorrida e com ideias subentendidas.

As relações humanas é o grande objetivo do filme, sem escolhas ou transgressões, Kechiche mostra que o amor acontece numa troca de olhar com um desconhecido no meio da rua, não importa o sexo da pessoa, a aparência ou as afinidades culturais. O sentimento é soberano a esses pequenos aspectos tão importantes para sociedade. Nessa conjuntura, as polêmicas cenas de sexo entre as atrizes Exarchopoulos e Léa Seydoux são importantes para a trama e em nenhum momento soam como um apelo visual.

Como supracitado, a proposta do diretor e nos fazer experimentar a vida de Adèle, por isso, as suas sensações ao se relacionar com Emma (Seydoux) é importante para travessia da história e soma à nossa percepção. As cenas são longas, não apenas insinuações como na maioria dos filmes, o que pode incomodar os mais puritanos, mas é compreensível sua relevância na trama. O desenvolvimento do relacionamento entre as duas jovens é muito intenso, avassalador e marcante.

Azul é a Cor Mais Quente brinda o espectador com vigorosas sequências, em que cada tomada se soma a outra criando a expectativa de um ápice fatal. Ao percorrer os anos, sentimos mais cúmplices de Adèle e compartilhamos suas dores e angústias. Após acompanhar um turbilhão de sensações, deixei a sala de cinema com um vigor a mais. Só me resta parabenizar todos os participantes deste espetáculo.

Nota: 5

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