Abdellatif Kechiche e a construção de Azul é a Cor Mais Quente

Abdellatif Kechiche e a construção de Azul é a Cor Mais Quente

Com estreia na última sexta-feira, dia 6, Azul é a Cor Mais Quente (La Vie d’Adèle) tem dado o que falar entre os críticos e os espectadores. Ganhador da Palme d’Or no Festival de Cannes este ano, o filme aborda as descobertas sexuais da jovem Adèle (Adèle Exarchopoulos), de 17 anos, e o seu amadurecimento por meio do relacionamento com outra mulher, Emma (Léa Seydoux). Se o tema sobre homossexualidade já não fosse polêmico por si só, o diretor tunisiano Abdellatif Kechiche resolveu explorar a relação carnal entre as duas personagens, com belas cenas de sexo e longas tomadas da ação.

Assim, Azul é a Cor Mais Quente foi proibido em alguns estados na América do Norte e recebeu classificação 18 anos por aqui. Além disso, somou várias críticas pela exposição das atrizes e suscitou uma briga entre o diretor e a atriz Léa Seydoux, que desaprovou os métodos poucos ortodoxos de Kechiche logo após ganhar o grande prêmio de Cannes no meio do ano. Com todo esse burburinho, o diretor, Adèle Exarchopoulos e Salim Kechiouche – o Samir no filme – vieram ao Brasil divulgar a produção em São Paulo e no Rio de Janeiro.

Polêmica

Sempre bastante reflexivo e pausado, Kechiche respondeu todas as perguntas sobre a polêmica do filme e suas influências, no entanto, deixou de fora o delicado assunto sobre sua discussão com Léa Seydoux. Adéle se mostrou sensual e não abandou o cigarro durante as entrevistas, assim como o pouco requisitado Salim. Adèle teve que responder uma 200 vezes sobre as cenas de sexo e, por fim, já estava dizendo apenas “não sei porque as pessoas se importam tanto com sexo”, ou “é como se o filme fosse só sobre isso”, sentenciava entre uma conversa e outra.

Durante o bate-papo com Kechiche, era evidente a satisfação do diretor sobre a polêmica e a repercussão do filme. Apesar de ter se inspirado no graphic novel Le blue est une coleuer chaude, de Julie Maroh, Kechiche confessou que mudou bastante a visão da história e não somente o nome da personagem principal. “Não gostei das características psicológicas da protagonista da HQ. Ela era frágil demais e vivia sua orientação sexual com muita culpa e de maneira passiva”, explicou.

O mesmo nome da atriz e da protagonista foi uma escolha de Kechiche para que Adèle encarnasse a personagem. A eleição das atrizes também foi orquestrada pelo maestro. Segundo ele, as intérpretes deviam vir da mesma condição social das personagens. Emma devia ser alguém da burguesia, enquanto Adèle seria uma pessoa da classe proletária. Outras coisas também pesaram na seleção de Exarchopoulos e Seydoux. “Tentei selecionar duas atrizes que fossem sentir uma atração uma pela outra. Quando me deparei com Adèle, já vi a minha personagem. Ela era uma jovem livre, generosa e com uma sensibilidade à flor da pele, além de muito sensual”, declarou o diretor. Acrescentou ainda: “no primeiro encontro, senti que Adèle era capaz de carregar o filme “.

Relacionamento com as protagonistas

Ao falar sobre Seydoux, Kechiche foi bem vago e resolveu elogiar apenas a performance e o profissionalismo de Exarchopoulos. “A relação entre diretores e atores é sempre muito intensa, então pode ser  muito calorosa e criar vínculos, mas pode ser que depois das filmagens uma atriz não tenha mais nada a dizer para o diretor. Pois, subitamente, a melhor coisa é esquecer toda aquela carga emocional. Mantenho um relacionamento muito caloroso com Adèle, ela se tornou parte da minha família de atores”, declarou.

Para o tunisiano, o filme não é exagerado em nenhuma parte e esse tipo de julgamento é bastante subjetivo. “Quis descrever uma paixão carnal entre dois personagens, que choca a alguns, mas não a todos. Trabalhei com meu senso estético e a cena ficou bonita de se olhar, mas nem todo mundo pode sentir a mesma coisa”, pontua. O closer nos órgãos sexuais das atrizes provavelmente é o que mais incomoda o público, uma vez que o sexo é apenas insinuado na maioria dos filmes, como se a reprodução de toda a ação fosse somente da ordem da pornografia. Para esse tipo de ondulação, o comandante da obra foi categórico: “A moral de um ponto de vista sexual sempre é subjetiva”.

Planos futuros

Para quem gostou da trajetória da jovem Adèle, Kechiche promete uma versão mais longa do filme a ser lançada em DVD, em algumas salas na França e na televisão. Embora, a obra tenha três horas de duração, o diretor diz que tem vontade de continuar com a personagem em outras narrativas e nessa extensão do filme haverá mais cenas de Adèle adolescente na sala de aula e como professora no mesmo ambiente.

Como a personagem surgiu da junção do seu filme anterior, A Esquiva (L’Esquive, 2003), com o graphic novel, essa nova identidade pode vivenciar novas histórias, de acordo com Kechiche. Segundo ele, o público só vai assistir a uma pequena parte da vida da jovem Adèle neste filme. “As cenas chocam porque as pessoas não estão habituadas, mas daqui a 10, 15 anos elas serão comuns a todos”, afirma. Será? Apesar de não concorrer ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro – Renoir está na disputa -, Azul é a Cor Mais Quente tem grandes chances de ser indicados às categorias de Melhor Atriz e Melhor Direção. Não acham?

Share this: