Cineasta francesa apresenta seu primeiro longa no Brasil

Cineasta francesa apresenta seu primeiro longa no Brasil

A cineasta francesa Ève Deboise esteve no Brasil no mês passado para divulgar o seu primeiro longa-metragem Paraíso Perdido (Paradis Perdu). O filme foi apresentado ao público durante o Festival do Rio, na mostra Expectativa, com direito a sessão com a presença da diretora e bate-papo após a exibição, no CineMaison Rio.

Apesar da sua estreia na direção, Ève possui um vasto currículo no cinema como roteirista, já escreveu outros sete títulos, como Capitães de Abril (Capitaines d’avril, 1999), que compôs junto com a atriz portuguesa Maria de Medeiros. Além disso, Eve dirigiu um curta-metragem, chamado Petite Soeur, em 2001.

A nova produção conta a história de Lucie (Pauline Etienne), uma jovem de 17 anos, que vive com o pai, Hugo, (Olivier Rabourdin), um fazendeiro de poucas palavras. A relação entre os dois cresce por causa da ausência da mãe (Florence Thomassin) e se torna cada vez mais intensa. Um ano depois de sair de casa, a mãe de Lucie retorna sem explicações para o desespero de Hugo, que acaba mantendo a ex-mulher em cárcere.

Conheça mais um pouco sobre o trabalho de Ève Deboise nessa entrevista com a cineasta realizada pelo Núcleo do Cinema durante sua rápida passagem pelo Brasil para divulgar Paraíso Perdido.

Como surgiu a ideia para realizar Paraíso Perdido?

Ève Deboise: O meu interesse era buscar uma forma cinematográfica para traduzir um sentimento.  Procurei fazer isso com a realização do curta-metragem Petite Soeur, que conta uma história da relação do pai e suas duas filhas. Esse curta, embora tivesse a duração de 30 minutos, eu não consegui fazer tudo que eu queria. Então, procurei nesse longa perseguir um pouco ainda essa historia, de uma relação funcional dentro de uma família.

O ponto de partida para a criação dessa história foi uma estufa, porque o enredo envolve sentimentos um pouco obscuros. Desse modo, procurei mostrar um contraste, com ambientes de muito sol e cores vivas e outros mais escuros. Posso dizer que a partir do momento em que fazemos crescer uma árvore da semente, podemos também apontar que ali tem vida.

A minha inspiração foi esse lugar que se situa na fronteira entre a França e a Espanha, em que você encontra nas vinícolas umas casinhas, usadas para armazenar os instrumentos da colheita. Parti desse ponto, porque estava obcecada com a ideia de alguém trancado nessas casinhas, fiquei intrigada e procurei trabalhar o meu tema a partir dessa perspectiva.

A narrativa aponta característica de solidão e intimismo. Como foi a construção do roteiro dessa história?

ED: A questão de onde a gente acha inspiração é complicada, porque cada tem as suas razões para fazer um filme. No meu caso, a literatura desde criança ajudou a me expressar e a me constituir, depois mais tarde me auxiliou a vir para o cinema. O que eu procuro é catalisar as emoções, umas emoções fortes, às vezes forte demais para mim mesma, mas eu sempre aposto nas emoções. Outro ponto importante é o trabalho com os atores.

Quando se faz um filme, ocorrem coisas que vão além de você. Por exemplo, no meu caso, quando busquei o tema dessa história, eu não tinha percebido que eu também estava escrevendo sobre a solidão. Percebi isso mais tarde.

Também se trata da sua presença, porque quando se faz um filme passa um mês ou uma hora da sua vida e é muito bom você filmar e tirar um filme disso. Durante a sessão, eu fiquei feliz porque escutei um pouco as pessoas rirem, que é uma coisa que sempre procuro. Tem umas partes no filme que são um pouco divertidas e irônicas. Isso é uma coisa que eu quero prosseguir nos meus próximos projetos.

Como foi trabalhar com os sentimentos femininos da mãe e da filha em oposição a brutalidade do pai?

ED: Sobre a figura do pai, gostaria de acrescentar, que quando escrevi o filme, eu queria evitar cair no factual. Não desejava mostrar a imagem de um marido brutal, que tranca a mulher dentro de um galpão. O roteiro tinha uma dimensão de conto que foi se desenvolvendo ao longo das filmagens. Embora, discorde da atitude brutal do pai, eu queria passar um sentimento e que as pessoas ficassem emocionadas com a figura do pai e o vissem como alguém completamente perdido, que não consegue analisar a sua situação.

Confira o trailer de Paraíso Perdido:

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