Paulo Duarte, diretor, roteirista e músico

Paulo Duarte, diretor, roteirista e músico

Com o rótulo de filme independe e de baixo orçamento, Paulo Duarte ao lado de Luiz Rangel produziu e dirigiu a obra Réquiem Para Laura Martin, que estreou no dia 14 de junho em algumas capitais do Brasil. Com nomes conhecido do grande público, como Anselmo Vasconcellos, Cláudia Alencar e Luciano Szafir, a obra conta a trajetória de um músico arrogante e obsessivamente apaixonado por sua amante, no entanto, por trás dessa história de amor há um misterioso plano mórbido.

O autor dessa trama, Paulo Duarte, iniciou sua carreira aos sete anos, no filme Os Trombadinhas (1979), último filme do famoso cineasta Anselmo Duarte, seu tio-avô. O artista passou pelo teatro, a publicidade, a música e a televisão. Após trabalhar no mercado de distribuição de filmes, fundou a Reza Brava Filmes e a Inteligência Audiovisual. Atualmente, atua como diretor da série Bipolar, do Canal Brasil, e seus planos para o futuro é lançar a comédia It’s Very Nice Pra Xuxu, com o grupo humorístico Os Barbixas.

Como todo esse currículo e sangue artístico, o Centro do Cinema realizou uma entrevista exclusiva com o diretor, roteirista, fotógrafo e músico Paulo Duarte. Confira abaixo o bate-papo sobre o seu último lançamento nos cinemas.

Centro do Cinema: Como surgiu a ideia de Réquiem para Laura Martin?

Paulo Duarte: Eu toco guitarra, contrabaixo, canto, componho e tenho amigos músicos, que sempre me aconselharam a compor no piano, porque é um instrumento que me daria mais possibilidades, uma vez que ele tem todos os outros instrumentos dentro dele. Antes de comprar o piano, eu comecei a ler um monte de coisa sobre o instrumento. Assim, surgiu a ideia de escrever uma história de ficção com o piano como o personagem principal.

Depois surgiu a intenção de fazer um triângulo amoroso. O [Luiz] Rangel, o outro diretor do filme, queria essa relação, mas ele me apresentou uma sinopse e eu não gostei nenhum um pouco. Assim, resolvi escrever a minha ideia de triângulo amoroso, que na verdade é um quadrado, porque o piano está no meio da história.

Centro do Cinema: Como foi o trabalho de codireção?

Paulo Duarte: Foi meio complicado. Eu e o Rangel temos estilos completamente diferentes. Tenho certeza, se ele tivesse dirigido sozinho, o filme seria outro. E se eu tivesse feito tudo, seria outra coisa completamente diferente. Na verdade, a gente tentou conversar bastante antes do filme. Durante as filmagens um não entrou no trabalho do outro.

Eu tive uma vantagem nessa história, porque fiz a direção de fotografia do filme inteiro, apesar de eu não assinar porque eu já tinha assinado roteiro, direção e música. Gosto de uma frase que diz: “Quando você tem um bom texto e bons atores, a melhor coisa que o diretor pode fazer e calar a boca e deixar eles fazerem o trabalho deles”.

Centro do Cinema: Você imaginava em fazer um filme fora do circuito comercial?

Paulo Duarte: Na verdade, eu imaginava fazer um filme de nicho, que não passaria no Cinemark, por exemplo, por causa das suas particularidades. Esse projeto tem um perfil de trabalho autoral, algo mais voltado para literatura. Eu já ouvi uma densidade de coisas das pessoas, como “é Bergman”, “é Cronenberg”, “é Nietzsche”, “é Nelson Rodriguez”, “é Almodóvar”. Todas essas referências eu acho muito bem vindas e fico muito lisonjeado com elas, mas não são reais.

O filme tem um baixo orçamento e é independente, ele já nasceu para o circuito de arte mesmo. Até por isso, eu tive uma liberdade maior para criar o texto. Eu jamais imaginei que o Luciano Szafir ia falar aquelas palavras, porque ele fala coisas que as pessoas realmente acham dele. Existe um público gigantesco para um filme que não é comercial. É uma ironia.

Centro do Cinema: Quais foram as suas referências reais? Eu senti um pouco de Nelson Rodrigues…

Paulo Duarte: As pessoas costumam a brincar e dizer que parece ser Nelson Rodrigues, eu respondo: é muito Paulo Duarte. Porque a história foi surgindo de algumas coisas que aconteceram comigo, tanto do piano quanto da parte pessoal também. Eu estava me desligando do meu casamento, emocionalmente mal e começando outro relacionamento. Estava rolando muito coisa e, enfim, teve isso, como em Nelson Rodrigues, mas não foi intencional. Os diálogos são uma coisa mais minha mesmo, sem buscar influência em outras pessoas.

Centro do Cinema: O personagem Maestro é inspirado em você?

Paulo Duarte: Eu acredito que eu tenho um pouco de cada um deles, mas bastante da mulher do Maestro. Porque eu gosto dessa coisa da culpa que ela carrega. Essa coisa de ela passar por tudo para conseguir o que quer tem muito de mim. Aquilo de ter lidar com pessoas e situações que você não está curtindo nenhum um pouco… é uma questão de resistência.

Centro do Cinema: Como foi feita a escolha dos atores?

Paulo Duarte: O Anselmo é fiz um filme em que ele fazia uma participação especial, chamado It’s Very Nice Pra Chuchu. É uma comédia baseada na música dos Titãs. Eu fiz antes do Réquiem… , mas ainda não foi lançado. Neste filme, o Anselmo faz uma cena mais dramática, um contra ponto do resto do filme, e ele emocionou a equipe toda, então, eu pensei na hora: eu preciso escrever alguma coisa para esse cara. Quando eu comecei a escrever eu já tinha ele na mente. Eu queria a figura do cara nervoso, meio sério, meio possessivo e cheio de paranóia.

A Cláudia [Alencar] foi uma surpresa, porque eu gostei muito do trabalho dela. Só o [Carlos] Moffy e [Luciano] Szafir foram convidados do Rangel, que ele tinha feito trabalhos anteriores com ambos. Encontramos a Ana Paula [Serpa], por meio de testes e gostamos do seu trabalho. Na verdade, a pessoa que estava cotada não pode por um motivo de agenda. Contudo, Ana Paula se deu muito bem com o personagem e o fez de um jeito totalmente diferente do que eu imaginava, mas ficou legal, não depôs contra.

Centro do Cinema: É raro ver uma produção em Gramado. Algum motivo especial para filmar na cidade?

Paulo Duarte: A gravação aconteceu em Gramado porque na época o [Luiz] Rangel morava lá, mas acabou que deu uma cara diferente para uma obra brasileira. As pessoas veem como um filme internacional porque não tem praia, samba, coisas que são identificadas numa produção brasileira. A cidade acabou ajudando e sendo até um novo personagem para o filme. Tem uma vibe muito legal de filme europeu.

Centro do Cinema: Qual foi a trajetória do filme até a distribuição comercial aqui no Brasil?

Paulo Duarte: Quando o Fernando Muniz, dono da FM Produções, entrou no projeto, ele ganhou mais fôlego. Ele tem força nesse setor, estava a fim de fazer cinema e queria atuar também. A gente fez uma parceria muito forte durante as filmagens e, a partir dali, ele abraçou o projeto. Assim, o Fernando começou a levar o filme para festivais e a exibição lá fora. O filme está fazendo uma carreira bem melhor fora do país do que aqui, talvez por causa do perfil do trabalho, de ter uma cara de filme de arte gringo. Se não fosse por ele [Muniz], acredito que o filme ainda estaria na gaveta.

Centro do Cinema: Como você espera a recepção do público aqui no Brasil?

Paulo Duarte: Apesar do público de filme de arte ser reduzido, comparado ao do Cinemark, eles primam pela qualidade e não é pequeno, tem vários filmes independentes que conseguem uma boa recepção. Sinceramente, as minhas expectativas são as mais humildes possíveis. A recepção do público será muito bem vinda e será lucro. Mas espero que o filme tenha uma carreira legal, que abra portas para outras produções do gênero, que passam principalmente pelo cuidado do roteiro e o trabalho dos atores.

Centro do Cinema: Depois de pronto. Qual parte do filme você mais gostou?

Paulo Duarte: A melhor sequência para mim foi o monólogo da Cláudia [Alencar], quando ela desabafa e fala tudo que está sentindo e o que está passando naquela situação. Ver o meu texto sendo declamado foi um momento muito bom e gostei muito de toda a sequência, até quando o marido volta para casa e ela está sobre o corpo da amante. Foi um momento muito forte durante as filmagens, são quase 10 minutos de fala de um personagem.

Share this: