Quando Eu Era Vivo | Marco Dutra insere o terror no cinema nacional

Quando Eu Era Vivo | Marco Dutra insere o terror no cinema nacional

É possível reverter a má fama dos filmes brasileiros de baterem sempre na mesma tecla. O cineasta Marco Dutra é uma dessas pessoas inconformadas com a mesmice do cinema nacional e propõe um novo olhar sobre a nossa produção. O artista paulista realiza um suspense psicológico com tons de terror em seu segundo longa-metragem Quando Eu Era Vivo, lançado no último dia 31 de janeiro.

Em entrevista à imprensa no Rio de Janeiro, Dutra ressaltou a necessidade de trabalhar gêneros distintos no país. Algo que ele enaltece na sua obra por meio de uma ambientação e atmosfera sombrias e pragmáticas, que comunica o mistério e o terror ao espectador. Além da ambientação do projeto, a caracterização do gênero se tornou uma marca profissional e um personagem da história.

Escolha dos personagens

Com oito curtas e o longa experimental Trabalhar Cansa, Dutra se sente à vontade para tocar seus projetos autorais no coletivo Filme do Caixote. O que tem dado bastante certo, aos 33 anos, o jovem cineasta trouxe nomes de pesos para o seu segundo projeto no cinema, como Antônio Fagundes, Marat Descardes e a cantora Sandy Leah.

Fagundes se interessou pelo desenvolvimento do filme antes de saber que ele poderia existir. Segundo Dutra, o ator leu o livro A Arte de Produzir Efeito Sem Causa, de Lourenço Mutarelli, e despertou o interesse por interpretar uma possível versão do personagem Sênio para o cinema. Poucos anos depois, a ideia lançada pelo ator para a mulher do escritor e seu produtor Rodrigo Teixeira se tornou realidade pelas mãos de Dutra.

Já a cantora Sandy Leah veio de um convite do próprio diretor. “Eu tinha 98% de certeza que ela daria a voz que eu precisava para a Bruna e mandei o roteiro. Ela respondeu rápido, ficou surpresa com convite, mas adorou a história e achou a personagem muito interessante”, conta Dutra. Antes mesmo de fecharem a agenda da artista com o período de filmagens, ela já estava confirmada na produção.

A escolha de Sandy fez grande parte do público e da crítica ficar um pouco ressabiada com o filme. A atuação dela, entretanto, é positiva e não compromete em nenhum momento a história, além de cumprir a função destinada por Dutra. “Eu cresci ouvindo a voz da Sandy, então era como se já a conhecesse e tivesse construído uma ligação”, revela o diretor.

Antes da escolha da cantora, Dutra e a coroteirista Gabriela Amaral Almeida adaptaram a personagem do livro de uma estudante de Artes Plásticas para uma de Música, e a partir daí começou uma busca por uma representante da voz que embalaria pontos chaves da trama. “Como mediadora da trama, a gente pensou que ela usasse a voz ao invés de ficar desenhando. Queríamos mudar a impressão gráfica do papel em função do roteiro. Pensamos na possibilidade de uma cantora atuar e o nome Sandy apareceu”, relata Dutra.

Já o protagonista foi escolhido a dedo pelo diretor, após duas parcerias anteriores (Um Ramo e Trabalhar Cansa) com Marat Descartes. “Ele é muito inteligente e entregue, para mim, isso é relevante, ele tem um nível mais intelectual na fase da preparação. A gente se dá bem porque ele consegue fazer essa construção no detalhe, como eu gosto”, rasga de elogios o cineasta.

Referências

Já Descartes afirma que se apaixonou pela história logo depois de ler o roteiro. “Eu achei um prato cheio para um ator e me veio imediatamente a figura de Jack Nicholson em O Iluminado (1980), porque tem uma situação de confinamento por opção ou magnetismo do passado, além de um processo de loucura que o torna uma pessoa violenta em relação àqueles que deveria amar, como o pai”, explica o protagonista.

Apesar da tensão e dos pontos de contato com outras obras do gênero, o diretor descarta qualquer referência proposital ou direta com outras produções. “Referências são partes da bagagem, você a usa mesmo sem querer. Fiquei preocupado, por exemplo, com as composições, pois não tinha certeza se estava copiando alguém”. A única fonte oficial do roteiro é o livro de Mutarelli, de onde o diretor retirou o conteúdo e as extensões para ambientação.

É exatamente o clima captado pelo cineasta que mais chama à atenção na obra. Paulatinamente, o roteiro insere o espectador no mundo fantasioso de Júnior explorando com grande veracidade a mudança do protagonista. O longa ganha contornos de terror e gera um grande suspense, o que surpreende a todos, uma vez que é difícil ver um filme com essa temática produzido em solo tupiniquim.

Precursor do Horror

Marco Dutra é fã de terror, mas não se coloca na posição de pioneiro de uma nova fase do cinema nacional. Com pouquíssimos produtores, os filmes desse gênero vivem à margem da indústria comercial nacional, dominada atualmente por comédias de teor televisivas. Alguns trabalhos, entretanto, começam a surgir e mostrar uma boa alternativa para o público.

“Gosto muito de filme de terror, assim como de musicais, ficção científica e comédia romântica. Faço parte de uma geração criada em videolocadora que sempre achou muito estranho os filmes nacionais serem do gênero nacional, tinha terror, comédia, ação, pornô e nacional. Eu não entendia essa lógica. O que é uma estética nacional?”, questiona o cineasta que deseja dirigir um musical, algo ainda mais raro na nossa cultura cinematográfica.

Após os compromissos de divulgação de Quando Eu Era Vivo, Dutra se prepara para rodar mais dois filmes de terror sem previsão de lançamento. As Boas Maneiras, com Juliana Rojas (sua amiga e parceira em Trabalhar Cansa), é sobre uma mulher grávida de um Lobisomen. Já o segundo será com a mesma produtora do seu filme atual e envolverá vampiros. É esperar para ver.

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