Uma visita aos bastidores do filme Trash

Uma visita aos bastidores do filme Trash

Há três anos Stephen Daldry (O Leitor e Tão Forte, Tão Perto) escolheu o Brasil, mais precisamente o Rio de Janeiro, para ser o cenário de sua nova aventura cinematográfica. Com objetivo de filmar o bestseller Trash, do escritor Andy Mulligan, o diretor e o produtor Kris Thykier (Kick-Ass – Quebrando Tudo) passaram seis meses em busca de um local para ambientação da história que se passa num lixão.

Além do seu espírito aventureiro e o desafio de construir um aterro sanitário cenográfico, o diretor trouxe dois atores de Hollywood para gravar na comunidade da Covanca, em Jacarepaguá, zona em domínio dos traficantes da região. As filmagens começaram em agosto e a grande parte das gravações está concentrada no reduto, além do Centro e do bairro Cachambi, na Zona Norte. O Centro do Cinema pode conferir um dia de gravação e bater um papo com os artistas do futuro longa.

Elenco internacional

Lá na Covanca, podemos ver um tranquilo septuagenário tomando café no refeitório, no entanto, ele é sempre convidado a tirar uma foto, isso porque é o célebre Martin Cheen (O Espetacular Homem-Aranha). “Eu li o livro e me apaixonei, a chance de poder encenar essa história é ótima. Aqui no Brasil, o padre é um ativista social, um missionário, ele não está focado em salvar almas, mas ajudar os outros.”, declara o ator de 73 anos, que interpreta Padre Julliard.

Apesar de não falar português, Martin tem muitas falas no idioma durante o filme, aliás, o longa é 90% na língua portuguesa. “Eu tive uma professora em Los Angeles, mas apenas para aprender as minhas falas do roteiro. Meu pai era galego, então, essa era sua segunda língua, mas ele nunca me ensinou”, confessa o astro entre risos.

Com aparência de uma menina, de calça jeans, camisa xadrez e botas, Rooney Mara (Terapia de Risco) cruza o terreno de gravação despercebida. Qualquer pessoa lhe daria uns 15 anos, no entanto, a atriz nova-iorquina já tem 28 anos. “Já estive no Equador, Peru e Bolívia como voluntária na época da escola, mas nunca tinha vindo ao Brasil. Não tive ainda tempo de ver muita coisa, mas nos próximos dias espero conhecer. O país é lindo e eu ouço sobre isso há muito tempo.”, comenta a jovem artista sobre sua experiência por aqui.

Convidados pelo diretor, os dois atores são os únicos estrangeiros em frente às câmeras no projeto. O elenco também é composto por Wagner Moura (Elysium), Selton Mello (Uma História de Amor e Fúria) e André Ramiro (Éden). A coprodução entre a brasileira O2 Filmes e as britânicas Working Title e PeaPie Films conseguiu driblar os obstáculos e realizar na Covanca – espaço pouco conhecido pelos próprios cariocas – o habitat de Rafael (Rickson Tevez), Gardo (Eduardo Luis) e Rato (Gabriel Weinstein), protagonistas da história.

Desigualdade social

Apesar da primeira impressão, este não é mais filme sobre favela carioca. O diretor sempre teve três possibilidades em mente: Brasil, Índia e Filipinas, já que o livro não é específico geograficamente. O espírito nacional, no entanto, foi decisivo para escolha do cineasta. “As crianças são muito inspiradoras para nós. Durante nossa temporada aqui vimos um momento de união dos brasileiros, protestando por mudanças.”, conta Daldry.

Os três protagonistas da história vivem no lixão em casinhas de palafitas sobre um rio. Diferente das produções conhecidas, em Trash, morar numa comunidade, com comércio, baile e meninas bonitas, é luxo para os personagens. “A prioridade do Sthephen era que o filme fosse bom para o público brasileiro. O Trash só vai ser um bom filme internacionalmente se ele conquistar a audiência brasileira”, esclarece Felipe Braga (Cabeça a Prêmio), roteirista responsável pela adaptação do roteiro de Richard Curtis (Cavalo de Guerra) para o português, ou melhor, para a linguajar carioca.

O trabalho de Braga e do preparador de elenco Christian Duurvoort (Xingu) foi de criar uma dinâmica para que as motivações e as intenções do roteiro fossem explícitas, mas sem que os meninos tivessem que decorar texto. O objetivo é deixá-los o mais natural possível, pois, por meio deles, o diretor deseja mostrar o verdadeiro Rio de Janeiro para a compreensão de todos os espectadores em qualquer parte do mundo.

Produção no Brasil

Os maiores desafios da equipe de produção já ficaram para trás, como a disciplina dos meninos e a construção do lixão. Pela cabeça do produtor de design Tulé Peak – responsável por obras como Tropa de Elite (2007) e Cidade de Deus (2002) -, surgiu a maquete e o desenho final do projeto. Sem chorume ou fedor, o lixão é quase real, as casas de palafitas em torno e o esgoto também. Para juntar tudo isso, a produção contou com apoio de cooperativas de lixo e um trabalho de três meses. Ao todo o construção possui 4 mil metros quadrados e 3 mil metros cúbicos de detritos.

Com a proposta de tornar o ambiente mais verossímil, foram jogadas carcaças de boi, porco e cachorro. “Queríamos atrair os urubus para cá, no entanto, eles comiam a carne podre e logo iam embora”, conta Peak. De longe, o panorama remete a filmes como Quem Quer ser Um Milionário (2008) e Indomável Sonhadora (2012). Outra semelhança com essas obras é a relação dos jovens protagonistas com o trabalho.

Protagonistas das comunidades

Os três meninos são de locais de baixa renda do Rio de Janeiro. Após três meses com a equipe, eles não fazem ideia de como será suas vidas daqui para frente. Gabriel Weinstein, intérprete do Rato, é o mais serelepe dos três. Morador da Cidade de Deus, ele soube do teste de elenco pelas ruas do bairro e correu para se inscrever. O garoto já tinha participado de uma minissérie televisiva, enquanto Rickson e Eduardo nunca imaginavam trabalhar no cinema. Moradores da Rocinha e de Inhaúma, respectivamente, ambos já sonham com as possibilidades futuras e aguardam ansiosos pelo lançamento em Londres.

As gravações de Trash vão até a segunda semana de outubro. Até lá muitos takes serão necessários e os três meninos terão muito que ensinar sobre ser carioca para Daldry, Rooney e Martin. O filme estreia em outubro de 2014, após a Copa do Mundo, quando as atenções de todo os países já tiverem mirado o Brasil.

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