Crítica | A Memória Que Me Contam

Crítica | A Memória Que Me Contam

O período da Ditadura Militar no Brasil rendeu história para diversos filmes nacionais, A Memória que Me Contam é mais um deles. Conduzida de maneira fora da linearidade por Lúcia Murat, o filme apresenta uma premissa interessante, afinal aborda o encontro de um grupo de ex-guerrilheiros na sala de um hospital, enquanto Ana (Simone Spaladore) musa inspiradora de todos está com os dias contados numa cama.

As conversas de uma turma de ex-militantes, suas aventuras e desventuras dariam elementos riquíssimos para uma trama sobre as consequências do passado nos dias atuais e até uma aula de história pela dinâmica pessoal de cada personagem. Mas se engana quem espera toda essa riqueza de informações e diálogos.

O filme é bem parado e arrastado, as discussões são vazias e, ao invés de lembrar suas edificações, o grupo utiliza o seu tempo para despejar preconceitos e acender brigas pessoais. Outro contorno do filme, também mal aproveitado, é a contextualização dos filhos dessa geração de ex-guerrilheiros. A história poderia abordar a construção de ideais de uma geração para outra, mas novamente tudo isso é superficialmente trabalhado.

Vemos grandes temas de interesse social sendo desperdiçados para focar nos problemas de um conjunto de pessoas admiradores de uma mulher. Ana aparece somente quando nova, nos anos de 1960, e todos os personagens “conversam” com ela, como uma espécie de espírito, fantasma ou alucinação. A montagem transmite a mensagem de que a vida de Ana foi boa somente naquele período de luta, depois tudo perdeu o sentido.

Simone Spaladore está bem com a sua personagem de musa no pedestal em cenas entrecortadas, no entanto, não tem nenhuma sequência forte ou dramática para impactar o espectador. O roteiro é o grande problema do filme, uma vez que a história não se desenvolve. Os elementos dramáticos se empurram para se acomodarem na narrativa, mas permanecem vagos.

A chegada de Chloé (Naruna Kaplan de Macedo), sobrinha de Ana de Paris, aumenta mais essa sensação de desordem. O personagem nada acrescenta ao enredo, no entanto, é tratado como um ponto chave. Além disso, a atriz não se encontra no papel e soa falsa, sem emoção, em todas as cenas, além dos seus diálogos serem os mais sofríveis.

A Memória que me Contam ainda tem a subtrama de Paolo (Franco Nero), um refugiado no Brasil, acusado de pertencer a um grupo armado na Itália nos anos de 1970. Depois de 40 anos, ele é levado preso na sala de hospital, sem motivo aparente, e solto novamente, sem nenhuma explicação. As incoerências do roteiro acabam com toda a mágica da história ao redor do personagem mítico Ana.

Para completar, Irene Ravache tem uma atuação perdida, na pele de uma cineasta apagada e sem força de expressão. O personagem parece ser a cópia da diretora e roteirista Lúcia Murat, que, novamente, erra a mão ao tenta entrelaçar elementos sem saber usar os conectores certos.

Nota: 2.5

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