Crítica | O Futuro

Crítica | O Futuro

Com uma proposta diferente de roteiro, Miranda July é responsável ainda pela direção e o papel de Sophie em O Futuro (The Future). Após dois anos do lançamento, o longa-metragem independente chega aos cinemas brasileiros com uma lógica diferente, grande melancolia e muitos diálogos existencialista.

O que mais chama atenção na produção é a narrativa realizada por meio da gatinha Paw Paw. É o animal da estimação que contorna os acontecimentos do enredo e lança uma mensagem/apelo aos espectadores. Como a narradora declara no filme, esta história é uma carta sem lápis na esperança de que alguém a leia e se envolva com a ela.

Por meio da solidão e do desespero da gatinha, a roteirista traça as metáforas da vida dos protagonistas, Jason (Hamish Linklater) e Sophie. O casal decide adotar o bichano, enquanto ele se recupera, ambos pretendem mudar radicalmente para receber o novo morador. No entanto, a mudança não sai da maneira esperada e os personagens em busca de um sentido na vida após os 30 anos fazem extravagâncias e ações impensadas.

A gatinha – o pontapé inicial para o caos na vida dos personagens – some durante boa parte do filme, perdendo a sua voz de liderança da história. Sophie queria ser uma dançarina exemplar e tão bela quando sua colega de dança, mas não consegue, assim como Jason tem suas ambições e não alcança seus desejos. Os dois decidem organizar suas vidas, mas acabam gerando uma desordem maior. Ou será que para se encontrar é necessário estabelecer o caos primeiro?

É uma reflexão pertinente para o filme, que mostra personagens vazios de emoções mais fortes, o que incomoda bastante. O filme busca uma identificação com o público por causa das premissas universais do medo de seguir em frente e da possibilidade de fracasso no futuro. Por outro lado, quem não vive nesse casulo de sensações, da inércia da vida, dificilmente vai se simpatizar com a história e o incomodo inicial pode se transformar em revolta.

O desenrolar do filme é lendo demais, desnecessário para uma história com objetivos traçados. A busca de si mesmo é um processo longo e muitas vezes frustrado, como a roteirista aponta nas falhas dos seus personagens, mas a lentidão das ações não funciona na narrativa fílmica de maneira tão literal. Sem uma mensagem direta, mas com muitos sentidos em aberto, Miranda July tenta traçar características da identidade adulta num contexto do relacionamento amoroso, da satisfação pessoal e da razão existencial.

Pode ser muita divagação para um mesmo filme, mas é exatamente essa abrangência da reflexão de cada espectador que a diretora deseja capturar escrevendo seu enredo por meio de linhas tortas. O Futuro tem pouco charme, mas mesmo assim possui sua elegância. A cena mais marcante pode ser considerada uma das melhores declarações de amor no cinema.

Numa discussão com Jason, Sophie inventa a suposição de que se um deles se esquecerem um do outro, eles terão uma música para se recordarem. Portanto, ela escolhe uma canção e diz que aquele é o som para eles se lembrarem do amor que sentiam. Será que alguém precisará ouvir a melodia até o final do filme?

Nota: 3.5

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