Crítica | A Fita Azul

Crítica | A Fita Azul

No Festival do Rio de 2012, tive a grata surpresa de assistir A Fita Azul (Electrick Children) e me encantei com a obra da novata Rebecca Thomas. Após sair do cinema com o misto de entusiasmo e emoção, não imaginava que depois de tanto tempo o longa poderia estrear no circuito comercial e trazer ao conhecimento do público o meu brilhante achado do mundo dos festivais.

A sinopse meio irreal chamou a minha atenção e eu não me arrependi de me deixar levar pelo roteiro e direção de Rebecca, que estreou com o pé direito no cinema, mas depois de dois anos ainda não apareceu com outra obra. A proposta do filme é contar a história de Rachel (Julia Garner), uma jovem mórmon que mora numa comunidade fundamentalista no estado de Nevada. Criada numa cultura de inocência e abstração da sociedade capitalista, a menina nunca ouviu música ou assistiu televisão.

Impressionada com o gravador de voz do líder da comunidade, ela remexe nos objetos pessoais de sua mãe, pertencentes a vida do lado de fora, e encontra uma fita azul. Ao colocá-la para tocar, Rachel se extasia por ouvir pela primeira vez os acordes de uma guitarra, se deixa levar pelo som e adormece. O conflito e o mistério do filme surgem três meses depois, quando Rachel aparece grávida.

Baseada no seu ensinamento religioso, a menina acredita fielmente na imaculada concepção e crê que a voz que escutou na fita azul é a responsável por engravidá-la. Como não sabemos a verdade, resta a nós espectadores seguirmos o caminho de Rachel para descobrir o dono da voz da canção e, quem sabe, o verdadeiro pai do bebê. A notícia, entretanto, é um choque para comunidade e os líderes tentam providenciar uma reparação do ato. Crédula sobre o seu ponto de vista, Rachel foge de sua residência com objetivo de encontrar o seu companheiro, a voz da hipnótica canção.

Ao seu encalço também parte o seu irmão na comunidade Mr. Will (Liam Aiken), ele não desiste de seguir seus passos até levá-la de volta ao seu lar. Por outro lado, Rachel começa a descobrir uma vida totalmente eloquente e abre os olhos para novos horizontes. Ao chegar à cidade de Las Vegas, a adolescente de 15 anos se deslumbra com as luzes, os sons, o comportamento das pessoas. O olhar da atriz Julia Garner é tão convincente que entramos na sua admiração pelo barulho e movimento.

A jornada de Rachel e Mr. Will é idílica e original, não há como prever nenhum acontecimento no filme. A cada momento, a roteirista insere mais um elemento ou uma surpresa que estimula o espectador a caminhar lado a lado com a jovem e se deslumbrar junto com ela. O seu principal companheiro nessa busca é o irresponsável e roqueiro Clyde (Rory Culkin), a curiosidade dele por ela e por sua inocência torna o relacionamento deles engraçado e ao mesmo tempo delicado.

Contar qualquer parte da trajetória de Rachel é estragar momentos de pura magia para o espectador. Os atores principais possuem uma sintonia intensa, isso inclui John Patrick Amedori, como Johnny, e, além disso, o confronto de culturas ocorre de maneira leve e realista sem nem ao menos pestanejar o tom de deboche ou qualquer comportamento parecido.

A grande questão do filme é uma resposta que o próprio público deve procurar. Esta é uma das melhores obras alternativas dos últimos anos. Quando todos os filmes parecem ser um amontoado de repetições, alguém, isto é, Rebecca Thomas, sopra um frescor de novidade no cinema.

Nota: 5

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