Crítica | Círculo de Fogo

Crítica | Círculo de Fogo

Após cinco anos, Guillermo Del Toro volta ao comando de uma grande produção com um duelo entre monstros e robôs gigantes em Círculo de Fogo (Pacific Rim). Suas últimas incursões cinematográficas foram na produção de filmes questionáveis, como Não Tenha Medo do Escuro (2010) e Mama (2013). A proposta do novo trabalho chama atenção do público pela o combate inusitado e a belíssima produção, mas as coisas boas param por aí.

Inspirados nos seriados japoneses do final da década de 1980, o longa tem um ótimo início. A contextualização dos fatos e da ambientação temporal da história é narrada de modo envolvente e, logo de cara, prendem o espectador com fortes imagens e pela expectativa das próximas cenas. Os 10 minutos iniciais deixam a plateia sem fôlego e totalmente rendida.

O filme se situa em um momento em que a Terra sofre com o ataque de monstruosas criaturas, nomeadas Kaiju. Elas emergem do mar no Oceano Pacífico e invadem a localidades litorâneas. O primeiro monstro destruiu uma cidade e matou milhares de pessoas até ser abatido pelos homens. Conforme os ataques de tornavam mais constantes, as nações se uniram e criaram robôs enormes para enfrentar o inimigo. A máquina foi nomeada de Jaegers e passou a ser controlada por dois pilotos, cujas mentes se conectavam por uma ponte neural.

É uma boa premissa, não é mesmo? A história se complica e se torna mais intrigante quando os Kaiju começam a derrotar os Jaegers. A vulnerabilidade dos robôs assusta os políticos, que decidem encerrar o projeto e começam a construir barreiras de contenção no meio do oceano. O plano B não dá certo e o projeto Jaegers volta à tona, no entanto, restam poucos pilotos em operação.

Esta é apenas a introdução da história e ao mesmo tempo a melhor parte de todo o filme, exceto as cenas de luta entre os monstros e robôs – ponto alto do roteiro. Com mais de duas horas de duração, as resoluções de combate ao Kaiju e o aumento dos ataques se prolongam mais do que o necessário e os próprios personagens se desgastam em tramas risíveis, isto é, os dramas e mistérios dos protagonistas são previsíveis e pouco originais.

Na liderança dessa guerra entre a humanidade e os extraterrestres está comandante o Starcker Pentecost (Idris Elba). Ele é responsável por resgatar o ex-piloto desacreditado Raleigh Becket (Charlie Humman), agora trabalhador braçal na construção de barreiras. Cinco anos antes Raleigh perdeu o irmão e parceiro Yancy Becket (Diego Klattenhoff) numa luta contra um Kaiju. O trauma o fez se afastar do antigo trabalho, no entanto, a convocação o faz regressar ao combate e a buscar um novo parceiro compatível.

Assim começa as incongruências de roteiro e os recursos batidos das produções de Hollywood para conduzir o filme. Os pilotos precisam ser compatíveis para ter uma ligação neural, algo bem ressaltado na trama. As duplas remanescentes são irmãos ou pais e filho, no entanto, Raleigh de repente se torna compatível com a inteligente, mas frágil, tenente Mako Mori (Rinko Kikuchi).

Situações semelhantes ocorrem em vários momentos da narrativa e fazem da superprodução um filme bem limitado em relação ao roteiro e com atores deslocados dos seus personagens. Depois de uma boa apresentação em Babel (2006), Rinko tem um papel desencontrado no limiar entre uma garotinha assustada e mulher determinada, por isso, acaba sendo uma caricatura de ambas as personalidades.

O protagonista Charlie Humman (da série Sons of Anarchy) também é pouco habilidoso ao encarar o lado emotivo do seu personagem, entretanto, ninguém supera a atuação robótica de Robert Kazinsky (da série True Blood), ao interpretar o desafeto de Raleigh. Todas as partes sobre os conflitos psicológicos e traumas passados são um mar de déjà vu de outras produções. Sobretudo, as motivações dos personagens, elas são muito pouco convincentes e, por fim, tudo se encaminha para um desfecho sem maiores explicações.

O espectador vai suportar todas as falhas de roteiro e estruturais para admirar as cenas perfeitamente desenhas dos combates entre Kaijus e Jaegers. Realmente vale a pena, porque a produção dessas sequências são muito bem executadas. No meio de toda ação e emoção, há os elementos de alívio cômico comandados pela dupla de cientistas Dr. Newton Geiszler (Charlie Day) e Gottlieb (Burn Gorman), ambos atrapalhados e estereotipados. A cereja do bolo é o personagem Hannibal Chau (Ron Perlman), um mafioso da Coreia do Sul, responsável pelo comércio ilegal das partes do corpo do Kaijus abatidos.

Como um bom blockbuster, Círculo de Fogo vai atrair o público por conta de sua “espetacularização” da tecnologia. Por outro lado, me alarma o quanto as grandes produções dão cada vez menos importância para construir um bom enredo com ideias, falas e atuações simples e bem embasadas. Guillermo Del Toro produz um belo espetáculo, mas está longe de uma obra-prima, como em O Labirinto do Fauno (2006).

 Nota: 2.5

Share this: