Crítica | Confissões de Adolescente

Crítica | Confissões de Adolescente

Há um tempo, o cinema nacional rebola para criar um verdadeiro filme voltado para os jovens, as últimas tentativas As Melhores Coisas do Mundo (2010) e Desenrola (2011) não conseguiram atrair tanto o público. Na verdade, o subgênero sempre foi meio capenga no Brasil e os adolescentes se acostumaram a seguir as produções norte-americanas, completamente diferentes da nossa cultura, contudo, edificáveis por causa da faixa etária.

Mas, se dá tão certo com as obras estrangeiras, por que o cinema nacional não consegue emplacar nada para esse público? Eis, então, que o diretor Daniel Filho teve a ideia de levar a consagrada história do teatro e, posteriormente, da televisão Confissões de Adolescente para o cinema e suprir essa demanda. Baseado nos diários de Maria Miranda e na série da década 1990, a trajetória das quatro irmãs adolescentes ganharam tons mais atuais e o humor inteligente do roteirista Matheus Souza (Eu Não faço a menor ideia do que eu tô fazendo com a minha vida).

As irmãs Tina (Sophia Abrahão), Bianca (Bella Camero), Alice (Malu Rodrigues) e Karina (Clara Tiezzi) vivem dilemas atemporais, como o primeiro beijo, a primeira transa, a escolha da faculdade e a entrada no mercado de trabalho. Cada uma com uma pequena diferença de idade mostra ao espectador que essa fase da vida poder ser bastante confusa quanto proveitosa. Apesar de ter as meninas como protagonistas, o filme não deixa de lado os meninos e também mostra seus conflitos.

Não se engane ao pensar que este é um filme só para adolescentes, quem já passou um pouco ou bastante dessa idade pode se divertir com as situações das irmãs tanto quanto se emocionar. Assim como a juventude, o enredo é uma montanha-russo de sensações. Uma hora, estamos rindo da imitação do tímido Felipe (João Fernandes) do vampiro Edward da Saga Crepúsculo para conquistar Karina e, logo depois, estamos chorando com Alice por conta de uma gravidez indesejada.

Apesar dos diversos temas tratados, nenhum deles se atropela ou se perde. Tudo é muito bem costurado e cada problema se entrelaça ao outro de forma que as histórias se completam. O pai vivido por Cássio Gabus Mendes também está ótimo ao lado das quatro jovens, seu posicionamento de paizão é acertado ao questionar, exigir, castigar e aconselhar as filhas. O roteiro segue uma linha de raciocínio sobre a consciência dos jovens sobre economia e custos, o que é realístico e pouco abordado no meio audiovisual.

Quando o pai declara que elas vão ter que mudar de casa, porque o aluguel está caro demais na Barra da Tijuca, as filhas ficam desesperadas. Elas não querem ficar longe dos amigos ou mudar de escola, por isso, sugerem cortar custos. Tina tenta arranjar um estágio ou emprego para pagar o apartamento em que vive em Niterói por causa da faculdade, enquanto Bella decide qual curso na faculdade pública ela se encaixaria. Bem, Alice está mais interessada perder virgindade com o namorado, enquanto Karina, apesar de mais nova, ganha dinheiro consertando e ensinando os moradores do condomínio a usarem o celular e o computador.

Nada é muito simples, além dos problemas sobre futuro, as meninas têm lidar com o aqui e agora. Tina repensa o relacionamento de cinco anos com Lucas (Hugo Bonemer) e Bella tem um namoro secreto e não sabe como encarar a relação publicamente. Os temas como primeiro amor e bullying também são tratados de forma leve. Aliás, a participação das antigas atrizes do seriado dá um gostinho saudosista para quem acompanhava o programa e se encaixam perfeitamente.

Confissões de Adolescente foi muito bem pensado para o adolescente brasileiro, dificilmente o público-alvo não vai se identificar. Matheus Souza, Daniel Filho e codiretora Chris D’Amato acertaram muito bem os ponteiros em cada sequência, além disso, não tentaram ser moralistas ou puritanos, as meninas aparecem nuas em cenas de sexo e falam abertamente e de forma coerente sobre o assunto. Longe da premissa educativa, ainda bem, o filme é um retrato da nossa época, com direito a muitas postagens no Facebook e Instagram.

Nota: 4

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