Crítica | Educação Sentimental

Crítica | Educação Sentimental

A primeira vez que me deparei com a obra de Júlio Bressane, por meio de Filme de Amor (2004), pensei: esse diretor faz filme para si mesmo. O cinema idealizado pelo cineasta não é fácil. Nada é mastigado ou explícito. Na verdade, compreender a sua lógica já é uma tarefa árdua, aceitá-la então é ainda pior. Raros espectadores conseguem acompanhar as elucubrações do diretor. Em Educação Sentimental, Bressane demonstra mais uma vez a sua fórmula pouco inteligível.

Dessa vez, o título até cumpre a promessa ao público, uma vez que por meio dos personagens Áureo (Bernardo Marinho) e Áurea (Josie Antello), o diretor traça um estudo e exploração dos sentimentos humanos por meio da mitologia, da literatura, das artes plástica e a dança. Áurea na posição de professora, detentora do saber, instrui o jovem Áureo, que acaba de conhecer, sobre as percepções do amor a partir da história da humanidade ao longo dos anos.

O filme começa com uma longa tomada do rapaz ao longe batendo os braços dentro de uma piscina. Para o nosso padrão de cortes rápidos, baseado em Hollywood, uma cena desse tipo é cansativa  e pouco atraente. Logo depois, o plano acrescenta a perspectiva de um sujeito observador. A partir dessa apresentação, os personagens se conhecem e começam a interagir numa grande aula sobre o relacionamento sentimental e tudo que lhe compete: desejo, sexo, satisfação e solidão.

O cenário e a trilha sonora também trabalham como personagens dessa dialética. Uma casa antiga com móveis velhos, com sons de rangido, pinturas e porcelanas históricas, além de portas, janelas, paredes de cores distintas, emoldurando os atores em cena. Por vezes, eles se apresentam ao público em recordes de triângulo e quadrado ou entre cortinas, como se o diretor quisesse centrar a atenção do espectador na fala e contar todos os elementos de sua visão, exceto a boca e os olhos de quem lhes falam.

O jogo de Bressane com público é pesado. São muitas informações entornadas em uma entonação cálida e persuasiva. Quando você começa a acompanhar uma teoria, outro pensamento se derrama sobre o anterior. A culpa não é da rapidez, aliás, o filme é bem parado, centrado nos movimentos de corpos do atores e da interação entre eles. As ideias, entretanto, são para ser assimiladas e elaboradas, o que transforma o longa numa enxurrada de sabedoria, mas com poucos caminhos para retê-la.

A obra Educação Sentimental é recheada de cenas boas para análise, como o barulho de uma batida ritmada que surge distante até aparecer uma porta e, em seguida, o movimento de um quadril rebolando de encontro ao objeto. A sequência é subjetiva, assim como todo o filme, e demanda uma reflexão do espectador. Aquele que não compreender essa necessidade de interagir com o espetáculo vai simplesmente repudiar o filme e entender que Bressane é para poucos.

Além da utilização da palavra para racionalizar o mundo, com poesia e citações filosóficas, Bressane compõe sua obra cinematográfica com ousadia de quem gosta de ver determinadas performances na tela sem dar motivos claros. O diretor dialoga com a semiótica, afinal de contas, dentro da teoria semioticista nada está ali por acaso e tudo tem um significado, basta o espectador estar disposto a investigá-lo.

Nota: 2.5

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