Crítica | Eu não faço a menor ideia do que eu tô fazendo com a minha vida

Crítica | Eu não faço a menor ideia do que eu tô fazendo com a minha vida

O longo e exaustivo nome do filme explica a crise existencial do diretor e roteirista Matheus Souza, após estourar aos 20 anos com o filme Apenas o Fim (2008). Seu primeiro longa abraçou milhares de jovens com o seu aporte cultural e uma dolorosa separação amorosa. Com um tom realista e humorado, o filme foi comparado ao Antes do Amanhecer (1995), de Richard Linklater. Assim, o jovem cineasta carregou nas costas a responsabilidade de apresentar algo sempre em um nível maior.

Eu não faço a menor ideia do que eu tô fazendo com a minha vida nasceu com os questionamentos do próprio autor sobre os seus próximos passos e encontrou a declaração de quase todos os adolescentes entre seus 17 e 20 anos, ou até bem depois, sobre o que fazer para o resto dos seus dias. Na ficção, Matheus ganhou a forma da personagem Clara (Clarice Falcão), uma estudante de Medicina que mata aulas porque não vê sentido no que estuda. Com uma grande família de médicos, ela se vê impelida a seguir o mesmo caminho, no entanto, não sabe se é isso que quer.

Com uma péssima mira, Clara passa as manhãs na pista de boliche sem derrubar nenhum pino. No local, ela conhece Guilherme (Rodrigo Pandolfo) que ajuda a enxergar suas possibilidades e seus verdadeiros desejos. De uma maneira simples, o rapaz sugere que ela pratique o que ela acha ser o ofício de cada profissão. O primeiro passo é relacionar seus talentos com algo útil. Segundo ela, sua compulsão por mentir é seu melhor talento.

Então, Clara testa as suas habilidades de advogada com os seus pais durante o jantar, contando sobre as aulas que não assiste. Além dos encontros com Guilherme, a jovem passa toda manhã com um dos seus tios e cada um deles conta um pouco de seus problemas e dúvidas independente da idade. Os cafés das manhãs com a família de Clara são divertidos e interessantes, são conversas cheias de críticas e reflexões sobre os aspectos da vida, sempre sem perder o lado carismático.

É exatamente esse o ponto forte de Matheus Souza, os diálogos. Sem dúvida, os espectadores de 12 a 35 anos vão entender todas as referências do mundo pop e, se já tiver passado dessa fase, vão conseguir compreender o seu universo. As declarações de Clara são um alento a maioria dos jovens que passam pela mesma situação, e só querem ser aceitos e amados. Ao sair do ambiente seguro da escola e encarar os milhares de caminhos abertos, qualquer pessoa precisa de um tempo de reflexão e de auto-aceitação.

Clara, por exemplo, gosta de patinar no gelo e ouvir música no Ipod, mas como isso pode ser útil para o seu futuro? As dúvidas da protagonista não estão apenas relacionadas ao mundo profissional, mas esbarra na sua relação com os pais, a família e o namorado. Afinal, todos os elementos da nossa vida fazem parte de um processo de escolhas e consequências delas.

Essa mensagem fica muito bem empregada no filme. As participações especiais de Leandro Hassum, Daniel Filho e Gregório Duvivier são um frescor na história. De maneira sutil, cada um deixa a sua marca. Já Rodrigo Pandolfo está muito bem e se comprova com um ótimo ator dessa geração, ele esteve em outros três filmes nacionais este ano com papéis bem divergentes.

Clarice Falcão é ótima em grande parte do filme, com seu ar de menina perdida e com um humor seco, mas nas cenas que exigem uma exploração dramática, a atriz não consegue se encaixar ou se mostrar verdadeira. O que estraga os momentos tristes em cena, mas não a trajetória do filme. Eu não faço a menor ideia do que eu tô fazendo com a minha vida é um exemplo de obra juvenil inteligente, algo raro no cinema nacional. A trilha sonora é um presente para a atual geração, com artistas independentes da nossa música Tiê, Rodrigo Amarante, Marcelo Camelo e Silva.

Nota: 3.5

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