Crítica | Ninfomaníaca – Volume 1

Crítica | Ninfomaníaca – Volume 1

Após toda a polêmica publicidade em torno do filme e do diretor Lars Von Trier, Ninfomaníaca ganhou status popular, no entanto, esse é o tom que o cineasta dinamarquês nunca dará para suas obras. Quem já assistiu a pelo menos um filme do artista sabe que sua linguagem e observação são bem diferenciadas e únicas, como em Dançando no Escuro (2000) e Dogville (2003).

Lars Von Trier gosta de mostrar o lado escuro do ser humano sem demagogia. Seus dois filmes anteriores Anticristo (2009) e Melancolia (2011) formam junto com Ninfomaníaca a chamada trilogia da depressão, a nomeação vem do costume do cineasta em molestar seus espectadores com cenas e sentimentos angustiantes e completamente reais. Mais uma vez com a sua musa Charlotte Gainsbourg, Von Trier tenta dissecar o sexo de forma lenta e sem prazer.

Com cinco horas de duração, a história da ninfomaníaca Joe (Gainsbourg) é dividida em duas partes. Esta primeira explora o conhecimento do sexo pela jovem protagonista, vivida pela modelo Stacy Martin, e a sua construção ao redor dessa ação, das maneiras mais repulsivas e cômicas. O filme inteiro é inspirado pelo humor negro e decadente, como se todas as coisas boas tivessem um lado ruim. As comparações metafóricas do sexo com coisas singelas e insignificantes traçam um caminho pela desconstrução de todo o prazer e amor que a relação sexual pode oferecer a um casal.

Enquanto isso, a música Führe Mich, da banda alemã Rammstein consegue imprimir um tom pesado e cria um movimento sombrio para o filme. Em outras palavras, se encaixa perfeitamente na proposta de Von Trier. A trilha sonora acompanha com grande mérito a nossa observância as estripulias sexuais de Joe, assim como o seu interlocutor Seligman (Stellan Skarsgård). Joe narra para ele a sua história desde a perda, pouco convencional, da virgindade até a sua obsessão por sexo, sempre de maneira jocosa.

Seligman faz o nosso papel de espectador. A todo o momento, ele questiona, duvida, se deixa levar, faz conjecturas sobre o que ouve e fica curioso sobre a narrativa da estranha mulher acolhida em sua casa. Ela se diz a pior pessoa do universo e começa a justificar a sua posição para o seu único público. Assim, vemos que jovem Joe era capaz de disputar com a amiga B (Sophie Kennedy Clark) quantos caras conseguem transar dentro de um trem, com o objetivo de ganhar um saquinho de chocolates.

Junto com outras meninas, elas “fundam” uma irmandade de adoração a própria vagina e o poder que ela tem sobre os homens. A única regra é não transar com a mesma pessoa mais de uma vez. Após B quebrar a regra, ela lhe conta um segredo sobre o ingrediente final ou essencial para o sexo: o amor. Joe foge dessa perspectiva, no entanto, como qualquer ser humano, se apaixona por Jerôme (Shia LaBeouf).

Antes de entrar nesse dilema de amor e sexo, ela passa por um jogo de transar com diversos e mais diversos tipos de homem até apresentar situações cômicas e trágicas. E, novamente, ela volta a se definir como o pior ser humano do mundo. Nesse entremeio, ela conta como era boa a relação com o pai e como odiava a estagnação da mãe. Sua admiração paternal e a raiva materna poderia ser uma ótima análise para o campo psicanalítico, fica bem evidente a construção dos princípios de Freud sugeridos por Lars Von Trier.

Ninfomaníaca – Volume 1 termina de forma abrupta com direito a muitas cenas do próximos capítulos durante as credenciais. Não são dois filmes. É realmente uma história partida, além disso, é difícil o espectador sair ileso da experiência. Não existe apenas uma maneira de digerir o filme, mas ele pode se pautado como um conto chato sobre sexo – pela linguagem do diretor – ou uma ótima manipulação de desejos sádicos de um ser humano em busca de sentir algo que ele mesmo não sabe se existe. De qualquer forma, Lars Von Trier sabe mexer com as pessoas de forma intensa.

Nota: 4

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