Crítica | Quando Eu Era Vivo

Crítica | Quando Eu Era Vivo

Somos moldados culturalmente a acreditar que “nacional” é um gênero de cinema. Portanto, por ser brasileiro o filme já estaria julgado a determinados conceitos e valores, assim como o romance ou o policial. Certo? Não. Apesar da majoritária onda de comédias, Marco Dutra (Trabalhar Cansa) remou contra a maré e realizou Quando Eu Era Vivo, um dos raros trabalhos nacionais de alto suspense e um pouco de terror.

Ao primeiro olhar, a gente desconfia da qualidade da obra, por causa do preconceito construído ao longo de décadas. No entanto, o público brasileiro consome com grande êxtase as produções norte-americanas de terror, por vezes, de qualidade questionável. Por que o cinema nacional não explora essa gama de espectadores? Não sei. O trabalho de Dutra, entretanto, consegue transpor todos os preconceitos e por quase duas horas faz o espectador mergulhar na paranoia de um homem maduro.  

Com um elenco inusitado composto por Marat Descartes (O Tempo e o Vento), Antônio Fagundes (da novela Amor à Vida) e a cantora Sandy Leah, o filme começa de forma mansa e delimitada, explorando a percepção do espectador. Durante a exibição, é fácil fazer algumas comparações com O Iluminado (1980), de Stanley Kubrick, por causa da atmosfera de apreensão e loucura do protagonista Júnior (Descartes), além do conflito familiar estimulado por questões mal resolvidas do passado.

Os atores têm um desempenho muito bom e todos comunicam suas angústias e receios por meio do olhar. Até a não-atriz Sandy convence como a estudante de música absorvida para o universo imaginário de Júnior. Contudo, o destaque é de Descartes, seu personagem consegue assustar os espectadores pela sua postura, imprevisibilidade e obsessão.

Aos poucos a simples história da volta do filho para casa do pai, após perder a mulher e o emprego, começa a tomar rumos sombrios e misteriosos. Com uma sugestão muito bem pautada, o roteiro de Dutra e Gabriela Amaral Almeida gradativamente revela o passado e o crescente conflito entre pai (Fagundes) e filho. O clima de tensão é instaurado sem a necessidade de sustos ou gritos.

Diferente de muitas obras do gênero, o filme não cai de produção, pelo contrário, apresenta todas as cenas bem encaixadas e mantém o suspense preso até o fim. Baseada no livro A Arte de Produzir Efeito Sem Causa, de Lourenço Mutarelli, a obra não frustra ninguém com uma resolução pífia, aliás, o final aumenta o seu potencial com uma trama bem engendrada e um viés da crença religiosa desmedida. A sensação é de que a loucura e o terror ganham maiores contornos na nossa imaginação. 

Nota: 4

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