Crítica | Tatuagem

Crítica | Tatuagem

Após escrever os roteiros das obras do diretor Cláudio Assis (Febre do Rato), Hilton Lacerda faz a sua estreia como diretor de ficção de longa-metragem no cinema. Apesar de experiente na sétima arte, comandar uma obra ficcional para as telonas comerciais tem um peso maior na carreira e aos olhos do público.

Ganhador do Festival de Gramado deste ano, Tatuagem se baseia nas trupes teatrais de Recife no final dos anos de 1970 e no combate à censura para realização desses espetáculos populares. A verossimilhança com a realidade contorna o longa, entretanto, é com o tom de ficção que Lacerda constrói uma homenagem à cultura nacional. Sua preocupação é documentar um momento da arte brasileira a partir de uma lúdica e polêmica história.

Tatuagem aborda temas considerados tabus e constrangedores socialmente, como o relacionamento homossexual entre dois homens e a contemplação da nudez em sua plenitude, além do forte apelo sexual e a campanha contra o regime político vigente na época. Essas características são louváveis no filme e sua crítica social é consistente, no entanto, o filme exagera na falta de pudor e escracha a relação sexual entre dois homens. A classe artística aplaude, a família torce a cara.

O cinema nacional bebe há muito tempo na água da nudez artística, isto é, quando o corpo nu é meramente ilustrativo e não necessariamente exposto como fato da história. Os atores principais realmente se entregam essa dinâmica da exploração corporal e estão totalmente soltos e despojados em cena. Irandhir Santos mais uma vez comprova ser um artista multifacetado e arrebenta na pele do líder da companhia teatral, Clécio.

Outro ator que se sobressai em cena é Rodrigo García, intérprete de Paulete, amigo de Clécio. Com um misto de rivalidade e ciúme, ambos os atores se entregam e protagonizam uma das sequências mais emocionantes da narrativa. Quem também se destaca é o jovem Jesuíta Barbosa, de 22 anos, que é a interseção do núcleo de artistas teatrais com o do exército, a partir do personagem Fininho, interesse romântico de Clécio.

Hilton pisa mais fundo em sua obra e explora a homossexualidade dentro do quartel, outrora considerado um ambiente machista e autoritário. Mais uma vez, sem pudor e com sensualidade, o cineasta escancara as descobertas e desejos sexuais dos jovens soldados. Sempre em paralelo, Tatuagem transcorre com um pé na exaltação da liberdade sexual e outro na execração da política conservadora.

Com a trupe Chão de Estrelas, o público revive uma época do país, na qual a liberdade de expressão era velada pelo puritanismo. Atualmente, o teatro apresenta pessoas nuas todos os dias e ninguém repudia ou impede tal procedimento artístico. O cinema já passou desse limite há tempo e a televisão, ainda tímida, começa a trilhar o mesmo caminho. A homenagem e intenção de Hilton Lacerda é completada perto dos minutos finais ao colocar uma filmagem em super 8 dentro do filme, com direito a créditos escritos no corpo nu dos atores.

Tatuagem é forte e realizado com o propósito de naturalizar as situações à margem da sociedade. Com marcantes cenas de sexo entre os atores Irandhir Santos e Jesuíta Barbosa e um número musical – duas vezes apresentado – sobre a soberania e democracia do cu, com direito a dança ressaltando essa parte anatômica do corpo humano, o filme vai incomodar muitas pessoas, enquanto outras vão apreciar o exercício de transgressão.

Nota: 3

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