Crítica | A Culpa é das Estrelas

Crítica | A Culpa é das Estrelas

Este não é mais um filme sobre câncer e muito menos mais um romance adolescente piegas, como à primeira vista a sinopse pode indicar. A Culpa é das Estrelas trata de um tema já mil vezes trabalhado, mas consegue surpreender. Assim como Juno (2007), de Jason Reitman, ultrapassou o tema de gravidez na adolescência. Dependendo da abordagem, um assunto pode mudar completamente de aspecto diante do espectador.

Adaptado do homônimo best-seller mundial, de John Green, A Culpa é das Estrelas pode ser comparado às dezenas de lançamentos advindos de livros voltados para jovem e adolescente, com intuito de aproveitar o público já conquistado. Com pequenas modificações e retirada de alguns personagens coadjuvantes, a adaptação, no entanto, não é apenas para fãs. A história é bem encaixada no vídeo e não fica atrás do livro, impondo um desenvolvimento próprio.

Aliás, o precedente sucesso da obra já demonstra a mudança de perspectiva da história de câncer e jovens apaixonados. A emoção e a tristeza estão presentes, entretanto, John Green abre um grande espaço para o bom humor e os diálogos afiados, tanto que muitas conversas das páginas foram diretas para a boca dos atores. O autor acompanhou as filmagens diariamente e isso pode ter feito diferença, porque este é um filme capaz de agradar aos leitores e também quem nunca chegou perto de um exemplar.

Se você tem em mente produções como Um Amor para Recordar (2002), com Mandy Moore, e Agora é Para Sempre (2012), com Dakota Fanning, pode esquecer. Aqui, a história é mais realista e menos previsível. A lista clichê de desejos é substituída por objetivos significativos, pensamentos mais amplos e a busca por uma maior verossimilhança. Os personagens possuem personalidades fortes, muito bem defendidas pelos atores. A participação Willem Dafoe (Ninfomaníaca), apesar de pequena, merece ser destacada.

A escolha dos protagonistas Hazel Grace Lancaster (Shailene Woodley) e Augustus Waters (Ansel Elgort) foi uma das apostas mais acertadas do filme. Ambos atores atuaram juntos na franquia Divergente, como irmãos, entretanto, como namorados a química é perfeita. Aliás, bem melhor do que a do par romântico de Shailene na adaptação de Veronica Roth.

Elgort está completamente diferente dos seus (poucos) papéis anteriores, como em Carrie, a Estranha (2013). O ator conseguiu transmitir o lado bem humorado, sarcástico, apaixonado e a face temerosa, indignada e raivosa de maneira natural e digna dos suspiros de todas as leitoras encantadas pelo personagem. Woodley já provou em outros papéis tanto na TV quanto no cinema que consegue segurar o rojão emocional com facilidade e apresentar um olhar encantador.

A trama é simples. Aos 16 anos, Hazel Grace conhece Augustus no grupo de ajuda para adolescente com câncer. Em apenas um olhar Augustus decide se aproximar dela e eles começam a compartilhar suas dificuldades, gostos e vontades. Ela não consegue viver sem um tubo de oxigênio e ele não tem uma perna. Hazel é apaixonada pelo romance Uma Aflição Imperial e seu maior desejo é saber o que acontece com os personagens após o final repentino do livro. Augustus tem medo de ser esquecido após morrer.

Apesar de ser um livro famoso entre o público feminino, o filme vai muito além do romance e merece ser visto por todos. A história ainda é um incentivo e uma homenagem ao poder da leitura para quem lê e escreve. O jovem diretor Josh Boone (Ligados Pelo Amor) teve êxito na sua composição delicada e bem desenhada, entre flashbacks, câmera lenta, enfoque nas expressões, para construir um enredo com várias mensagens destinadas a todas as pessoas, e, claro, verter lágrimas.

Responsáveis pelos ótimos (500) Dias com Ela (2009) e Spectacular Now (2013), os roteiristas Michael H. Weber e Scott Neustadter sabem como traduzir o amor e as expectativas da vida de forma ímpar. Neste caso, eles descortinam a obra de John Green e mostram que o ser humano é plural e a doença é um problema a ser enfrentado, sem fantasias, com ou sem fé, e o processo varia de acordo com o indivíduo. A Culpa é das Estrelas emociona, mas também diverte e, sem grandes pretensões, é realista, acolhedor, doloroso e redentor.

Nota: 4

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