Crítica | Clube de Compras Dallas

Crítica | Clube de Compras Dallas

O canadense Jean-Marc Vallée é desconhecido em Hollywood, apesar de ter bons filmes no currículo, como C.R.A.Z.Y. – Loucos de Amor (2005) e A Jovem Rainha Vitória (2009). O reconhecimento do seu trabalho chega agora por meio do desempenho de seus atores em cena. Este ano, Vallée surgiu como forte candidato entre os preferidos da academia, com seis indicações ao Oscar para Clube de Compras Dallas.

Baseado numa história real, a obra não entusiasmou somente os membros de Hollywood. Com Matthew McConaughey e Jared Leto irreconhecíveis e inspiradíssimos, o espectador demora um tempo para aceitar que aqueles são rostos de galãs do cinema totalmente transmutados e solidificados na composição do personagem e com a missão de transmitir uma importante mensagem.

Além da impactante transformação corporal, McConaughey incorpora um personagem bem humorado e instigante, sempre que ele se sente por baixo, ele consegue uma forma de dar a volta por cima e criar uma artimanha para sobreviver. A sua luta pela vida se torna um jogo de esperteza e essa manobra de intenções faz com que o espectador sinta cada vez mais empatia pelo protagonista.

No início do filme, Ron Woodroof (McConaughey) é o símbolo do caubói machão do Texas, regado a bebidas, drogas e mulheres descartáveis. Com fama de trambiqueiro, ele ganha a vida como eletricista e com apostas por aí. Na companhia de outros caubóis, a vida transcorre normalmente em Dallas dos anos de 1980. Só que, de repente, Ron sofre um pequeno acidente e vai parar no hospital, onde um exame de sangue acusa HIV Positivo.

A partir desse cenário, o filme apresenta todo o panorama de uma época de pouco conhecimento científico e grande preconceito agregado à AIDS. De lá para cá, a sociedade não mudou seus aspectos gerais, o desconhecimento sobre algumas parasitoses permanece e o preconceito é uma forte aspecto social. O portador do vírus da AIDS, pelo menos, deixou de ser colocado à margem da sociedade.

Diagnosticada como uma doença pertencente ao grupo dos homossexuais na época, Ron começa a ser rejeitado pelos amigos e ameaçado por sua nova condição. A promiscuidade do protagonista com mulheres lhe acarretou a doença, entretanto, o imaginário social era regido pelo conceito da homossexualidade e AIDS andarem juntos. O próprio Ron tem que aprender a lidar com a sua cultura homofóbica para seguir em frente. Sua mudança de postura se estabelece em pequenos detalhes, até aceitar ser sócio do travestir Rayon (Jared Leto).

Também debilitado pela doença, Rayon vai lhe ensinar pequenas lições da vida e eles criam uma cumplicidade inimaginável no início da história. Com 30 dias de vida dado pelos médicos, Ron desafia a morte e busca um tratamento por conta própria. Aqui, a geração de lucro da indústria farmacêutica também é abordada, sendo uma das principais brigas compradas pelo protagonista.

Assim, ele e Rayon fundam o Clube de Compras Dallas para financiar seus medicamentos, e os de outras centenas de pacientes mal cuidados pelo sistema de saúde, a partir do tráfico de remédios alternativos, considerados na época ilegais nos Estados Unidos. A proibição vigora, enquanto o sistema de saúde norte-americano utiliza remédios sem eficácia ou com muitas contraindicações empurrados pela ambição das indústrias farmacêuticas.

Seu auxílio ilegal é barrado algumas vezes, mas a veia cômica e seu jeito de malandro de Ron contornam a maioria dos problemas. Por não se deixar abater ou concordar com o limite anunciado de sua vida, Ron contribui para o crescimento dos estudos na área e pela luta contínua por milhares de vida. O filme é emocionante, divertido, informativo e biográfico, além de contar com as melhores atuações da carreia de McConaughey e Leto. Com todo esse show de edição, maquiagem, composição e atuação, o diretor Vallée começa a aparecer na calçada da fama.

Nota: 4

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