Crítica | Os Dias Com Ele

Crítica | Os Dias Com Ele

Este não é um documentário comum. Conduzido por Maria Clara Escobar, uma das roteiristas de Histórias que Só Existem Quando Lembradas (2011), a narrativa da obra traça uma trajetória indeterminada e bastante solta sobre o perfil do reservado filósofo e dramaturgo Carlos Henrique Escobar, seu pai. Acredito que nem a própria autora sabia o resultado do seu projeto antes da última edição. De forma autoral e intimista, Maria Clara revela o pouco do seu passado, da sapiência de seu progenitor e busca um olhar distinto da Ditadura Militar no Brasil.

Em Os Dias com Ele, tudo começa com um homem atrás de uma pilha de papéis questionando se já começou a gravação. Esses pontos de início de filmagem foram corajosamente deixados pela diretora em busca de uma verdade perdida após o conhecimento da câmera.  Sem saber quem é aquela pessoa, ouvimos sua trajetória com interesse de descortinar esse personagem que conta sua origem e seu atual estado regional.

De ouvidos atentos, espero por mais algumas dicas de quem é esse misterioso homem que me fala. O tempo transcorre lento, as tomadas de cena são paradas no espaço e em enquadramentos imprecisos. Maria Clara intervém na sua obra, aponta direções e nos apresenta um objetivo, ao mesmo tempo em que explica para o seu pai o porquê da gravação. Ele se incomoda com a falta de clareza em todos os momentos, tenta definir seu papel nessa atuação da vida real, como tantas vezes fez em suas peças.

Recluso, o dramaturgo tentar responder os questionamentos simples e subjetivos de sua filha. Casos pessoais são revelados diante da câmera. Todos têm a sua história de dor, arrependimento e redenção, o documentário revela um pouco de cada estágio do relacionamento entre pai e filha. Dificilmente, alguém não vai se permitir a mesma reflexão sobre como desconhece as origens e caminhos dos seus próprios pais ou como eles não conhecem os seus filhos.

Maria Clara busca uma autodescoberta por meio do diálogo com o pai e contar um pouco do envolvimento dele com a construção da história do Brasil. Apesar de não citar sua participação política ativa e seu trabalho durante o documentário, em uma busca rápida na internet descobrimos que há muito mais por trás do que aquele homem conta de si. E é isso que o filme faz, ele desperta o interesse dos espectadores por mais de suas histórias. Por vezes, a narrativa cai de produção e nem tudo é tão chamativo assim, mas não compromete a obra.

Escobar lê uma das partes de sua peça para a filha, a câmera e o espectador. A ficção por trás da descrição lírica dos momentos de tortura se mescla com sua experiência real, algo que Maria Clara tenta arrancar dele. Ele, entretanto, sabiamente, lhe responde em um contexto reflexivo e filosófico. Os Dias Com Ele guarda uma cena marcante, na qual a câmera parada passa minutos mostrando uma cadeira vazia encostada no muro, enquanto ao fundo fora da tela, ouvimos pai e filha discutirem sobre o andamento do filme e a vida em si. A tarde cai e os dias que Maria Clara passou com o pai em Portugal ficam gravados e registrados na nossa memória.

Nota: 3

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