Crítica | Praia do Futuro

Crítica | Praia do Futuro

O cineasta Karim Aïnouz (O Abismo Prateado) orquestra um filme sensorial e sinestésico sobre uma trajetória de autodescobrimento. Por meio de uma experiência marcante na vida do salva-vidas Donato (Wagner Moura), a história se desenvolve de forma abrupta e intensa. Ao fracassar em um regaste, Donato carrega o fardo de uma vida consigo, mas ao conhecer Konrad (Clemens Schick), o amigo da vítima, ele encontra uma nova perspectiva de vida.

Visto como herói pelo irmão mais novo, Donato passa os dias na Praia do Futuro, em Fortaleza, cuidando dos banhistas. Nesse local, o seu caminho se cruza com o do alemão motociclista de alta velocidade. Sem muitas explicações, o desejo entre os dois é mútuo e forte. Os personagens não falam sobre seus sentimentos ou dúvidas, portanto, são os movimentos, as cores, as situações que transportam, pouco a pouco, o espectador para atmosfera de sensações vivida por eles.

Dividido em três partes, Praia do Futuro transita pelos momentos chaves da vida de Donato, sem se preocupar em situar o espectador. O roteiro funciona de forma intimista tratando as situações com delicadeza e emoção para dar continuidade a narrativa, sempre interrompida por limites temporais não escritos no enredo, mas apenas insinuados. A força do longa fica por conta das interpretações dos protagonista, bem naturais e livres em cena.

O contraponto da obra é exatamente o seu posicionamento lento, com sequências monótonas e muito sensoriais. Apesar de admirarmos os acontecimentos, tudo se desenvolve de forma melancólica e até um pouco distante do público. Visualizamos cenas de amor e sexo do casal homossexual, mas eles não descortinam suas personalidades, o que afasta o espectador e o deixa de forma passiva diante da tela.

Provavelmente, o objetivo de Aïnouz era apresentar um trabalho contemplativo e pouco focado em discussões polêmicas. A cada capítulo do filme, Donato se confronta consigo mesmo, mas a gente não o vê transparecer uma emoção palpável, portanto, tudo fica na imaginação e interpretação de quem assiste. O relacionamento amoroso se desenha com cenas emblemáticas no lugar de diálogos.

Konrand e Donato cantando e dançando a canção Aline, do francês Christopher, é de uma beleza ímpar e comunica, muito bem, o não-dito. Os limites territoriais e culturais, além da autoaceitação, são barreiras para o romance. O roteiro apenas nos mostra poucos conflitos e dilemas entre eles, mas há muito silenciado entre uma cena e outra. De um capítulo para outro, muitas questões ficam nas entrelinhas.

Wagner Moura é um misto de complexidade, seu personagem introspectivo o obriga trabalhar muito mais suas expressões do que declarações. A mudança de Donato para Alemanha é acompanhada pelo dilema de viver uma paixão ou cuidar da família, o diretor apresenta sua decisão de forma delicada. A terceira parte do filme, que conta com a presença do talentoso e inspirado Jesuíta Barbosa (Tatuagem), é o momento da revelação de todo lúdico romance ou desamor. Os minutos finais iluminam todas as questões não abordadas durante a trajetória de Donato e, assim, percebemos que o caminho, por vezes, é mais importante que o destino.

Nota: 3.5

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