Crítica | Trapaça

Crítica | Trapaça

David O. Russel apresenta um elenco estrelar com atuações magníficas em Trapaça (American Hustle), mas não vai muito além. A história é boa e o figurino recebeu atenção especial da produção, um verdadeiro desfile de estilo anos 70, no entanto, o reboliço causado pelas indicações aos maiores prêmios da indústria cinematográfica norte-americana não se justificam.

O diretor reúne os principais atores de suas duas últimas superestimadas obras, O Vencedor (2010) e O Lado Bom da Vida (2012), como Christian Bale, Amy Adams, Jennifer Lawrence e Bradley Cooper. Como essa equipe de indicados ao Oscar, o Russel ao lado de Eric Warren Singer conta novamente uma história real, agora baseada numa investigação do FBI no ano de 1978.

Apesar do lugar comum e das esperadas reviravoltas, o enredo é interessante, não pela resolução do caso policial, mas pela construção dos personagens. Mais uma vez, repito, o grande chamariz e o motivo do sucesso deste filme se dão pelo elenco e a construção dedicada de cada um ao personagem. O desenvolvimento de todo esquema fica em segundo plano, quando passamos a observar apenas o movimento dos atores em cena.

Christian Bale encara com categoria o trapaceiro careca e barrigudo Irving Rosenfeld, que de forma incomum tem um ar de sedutor e trabalha com a sua amante Sydney Prosser (Amy Adams) em um ilegal jogo de especulação financeira. Ela atrai os clientes, enquanto ele oferece a lábia e a picaretagem essencial para o negócio. Dono de uma cadeia de lavanderia, ele encontrou no trambique uma forma de aumentar suas finanças.

O relacionamento dos dois é simpático e sedutor, aliás, Amy Adams dá um show de sensualidade, algo pouco explorado pela atriz até então. Irving, no entanto, possui uma jovem esposa estabanada e rebelde, Rosalyn (Jennifer Lawrence), que o prende por causa do filho. Apesar do papel secundário, Jennifer Lawrence rouba a cena cada vez que aparece e sua função na trama é desalinhar os caminhos dos protagonistas.

Após um golpe mal engendrado, Inving e Sydney são forçados a colaborar com o agente do FBI Richie DiMaso (Bradley Cooper) para prender mafiosos de grande escalão. O policial DiMaso acaba sendo o grande pateta da história, na verdade, esse é propósito do roteiro. Ele se deixa iludir pela bela e sensual mulher e esquece que está lidando com um trapaceiro de primeira. A atuação de Bradley Cooper cumpre sua função como bonachão, mas não se destaca para uma indicação ao Oscar.

Quem realmente brilha nos poucos minutos que aparece em cena é Robert De Niro, como elemento surpresa do filme. O veterano ator faz o que sabe de melhor: o mafioso psicopata. Esta pequena participação ganha de longe sua atuação nos seus últimos filmes, Ajuste de Contas (2013) e O Casamento do Ano (2013). Ganancioso, o jovem detetive não se satisfaz em prender membros do crime organizado, ele quer capturar os políticos, quando entra em cena o candidato boa praça Carmine Polito (Jeremy Renner).

Com dezenas de interesses diferentes postos em mesa, a bagunça orquestrada desde o início da proposta do policial vai sendo desenrolada do carretel. A finalização disso não é o importante, todo mundo já sabe o que vai acontecer, o fascinante do filme são os contornos dos personagens, com evidência para Rosalyn. A jovem muda de conduta e perspectiva ao descobrir que também possui determinados poderes. O trabalho de David O. Russel é ágil e eficiente, mas muitas obras melhores têm sido menos louvadas por aí.

Nota: 3.5

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