Crítica | O Lobo Atrás da Porta

Crítica | O Lobo Atrás da Porta

Sylvia (Fabiula Nascimento) chega à escola para pegar a filha Clara (Isabelle Ribas), mas a menina não está. A professora afirma que recebeu uma ligação da mãe para avisar que a vizinha ia buscar a aluna mais cedo. E, agora? Onde está a garotinha? Com essa simples questão, Fernando Coimbra realiza um dos melhores filmes de suspense do ano. O Lobo Atrás da Porta é uma surpreendente trama de paixão, traição e vingança, com o subúrbio do Rio de Janeiro, e suas estações de trens, como um poderoso pano de fundo.

O caso vai parar na delegacia. Lá, um policial (Juliano Cazarré) interroga os pais da menina e começa a montar as peças do quebra-cabeça. A história se desenvolve pelo ponto de vista de Sylvia, do marido Bernardo (Milhem Cortaz) e, por fim, da amante Rosa (Leandra Leal). A partir do sumiço da garotinha, o longa desencadeia o caso amoroso de Bernardo com a jovem Rosa e seus conturbados contornos. O filme aponta pistas cegas e envolve o espectador cada vez mais no drama dos personagens.

Leandra Leal (Mato Sem Cachorro) esbanja sensualidade e altivez nas cenas com Milhem Cortaz (Os Homens São de Marte… E é pra Lá que Eu Vou!). Suas nuances de bandida e mocinha são perfeitas, ela dosa precisamente o lado amoroso e calculista de Rosa. É um dos melhores trabalhos de Leandra no cinema, mais intenso que sua excelente interpretação em Nome Próprio (2007). O enredo é envolvente por si, no entanto, a força magnética do elenco multiplica o impacto das ações para o espectador.

Cortaz também merece seu reconhecimento, oscilando entre o marido cínico e o amante violento. A fuga juvenil do casamento toma proporções incontornáveis para Bernardo. Quanto mais ele tenta enterrar a traição do matrimônio, mais ele cava um buraco para si e sua família. Como macho dominante, ele impõe sua força, humilha e ameaça Rosa para acabar com sua angústia. Bernardo, no entanto, não esperava por uma retaliação da mulher desenganada.

Apesar de soar meio folhetim, O Lobo Atrás da Porta passa longe dos dramalhões novelescos. Os personagens soam sempre verdadeiros e em dúvida sobre as consequências dos seus próprios atos. Presente em apenas três momentos, a atriz Thalita Carauta (S.O.S. – Mulheres ao Mar) rouba a cena quando aparece. A desbocada Bete é um deleite para a plateia, com um jogo de palavras rápido e uma resposta atravessada para cada frase direcionada a ela. Além do alívio cômico, o personagem curto é essencial para história, pois evidencia a fratura entre a verdade e a mentira.

O policial ouve os depoimentos assim como nós, contudo, ele consegue pescar inverdades nas narrativas. Ele é ponto de esclarecimento do jogo de intrigas criado pelo trio de protagonistas. Ficamos apreensivos sobre quem está mentindo e até que ponto cada relato é verdadeiro, entretanto, quando as resoluções seguem um rumo, não queremos acreditar no desfecho.

Com uma belíssima fotografia do subúrbio carioca, o diretor e roteirista Coimbra apresenta um cenário de degradação da cidade, entre o horror e a confiança, com direito a uma linda cena dos festejos de lava-pés na Igreja da Penha e imagens estremecidas que dão a sensação de estarmos dentro do trem. O Lobo Atrás da Porta é duro, forte e lembra os acontecimentos estarrecedores que aparecem nas páginas dos jornais.

Nota: 5

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