Crítica | 50 Tons de Cinza

Crítica | 50 Tons de Cinza

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Após assistir ao popular 50 Tons de Cinza, não entendo a polêmica envolvida em torno do filme. De partida adianto que não li o livro, tudo que eu sabia sobre a história foi visto na internet, no entanto, o meu objetivo é analisar apenas o filme. A primeira impressão é que a diretora Sam Taylor-Johnson (O Garoto de Liverpool) foi deveras conservadora nesta sua segunda incursão em longas-metragens.

É de se questionar se o filme fosse comandado por um homem a contextualização seria diferentes. Digo isto porque o jogo sexual apresentado pelos protagonistas de 50 Tons lembra bastante 9 ½ semanas de Amor (1986), mas não empolga. Já o ícone erótico protagonizado pela sensual Kim Basinger e Mickey Rourke é sensacional, excitante e totalmente sedutor. O clássico foi comandado por Adrian Lyne, responsável pelos ótimos Atração Fatal (1987) e Infidelidade (2002).

A adaptação de E. L. James, entretanto, se encontra no limbo entre um romance improvável, além de cafona – garota pobre, homem rico -, e uma tentativa de erotismo. As falas do empresário milionário aos 27 anos soam muito amadoras para um homem tão controlador quanto se deseja passar. É de fazer rir quando ele pronuncia: “Eu não sou um homem para você”, “Eu sou incapaz de deixá-la sozinha”, “Você tem me mudado”, senão é exatamente isso, é por aí.

A protagonista Anastasia Steele (Dakota Johnson) é uma garotinha desengonçada que, apesar da graduação de nível superior, parece estar no ensino médio. É reprimida demais e não possui nenhuma ambição na vida. Ao conhecer um cara bonito e rico, ela encontra a chance que nunca teve. O emprego numa lojinha e o fusca a estereotipa como uma menina pobre e, claro, com todo o direito de ficar deslumbrada com um passeio de helicóptero.

O interesse do “poderoso” Christian Grey (Jamie Dornan) pode ser justificável por ele já enxergar uma submissão na menina, ou seja, uma presa fácil. O discurso do filme, entretanto, não é exatamente este, já que ele cuida dela, dá presentes, tenta “desenganá-la”, mas não há outra razão e enredo desanda completamente. Numa parte, ele diz que quer controlar todos os seus movimentos e, assim, ela se sentirá mais livre, pois não precisará fazer escolhas.

Não entendo porque o livro vendeu milhões ao redor do mundo, a não ser que as mulheres atuais não queiram sair desse lugar de submissão imposto culturalmente e socialmente ao longo dos anos. Os ideias feministas são jogados no ralo, aqui o sexo feminino só encontra o prazer (?) a partir do outro, não nelas mesmas. E isso não tem a ver com o ato sexual.

Ao conhecer alguém capaz de lhe dar tudo e comandar a sua vida sem rumo, Anastasia se apaixona. O problema é que ela sonha com o príncipe encantado e todo o ideal romântico, então, ainda falta algo na relação, o que gera uma angústia. Ambos são desestabilizados emocionalmente e a parte sexual naufraga num dilema de namoro juvenil. Ela quer bombons e flores, ele trata as mulheres como objeto porque teve um início de vida difícil. Ela, então, se submete aos comandos dele na esperança de ir ao cinema e sair para jantar, como um casal normal.

50 Tons de Cinza possui umas seis cenas de sexo e, cá entre nós, nada demais. Todas as atividades do casal são cenas comportadas. Outro problema é que os protagonistas não são excitantes. O homem parece um robô ao transar, tudo para ele é maquinal, ela é passiva demais e falta de tempero na atriz, vale ressaltar que não se trata do corpo, mas de presença.

Filmes atuais com Ninfomaníaca – Parte 1 (2014) e Azul é Cor Mais Quente (2013) têm cenas de sexo de tirar o fôlego, mas eles chocaram o público feminino, isto é, a mulher ainda tem vergonha de si. Se 50 Tons de Cinza fosse uma história a favor de uma liberdade sexual maior para as mulheres, eu aplaudiria, mas ele é exatamente o oposto.  E prega exatamente o contrário dos filmes citados ao longo do texto.

A parte do contrato ganhou uma apresentação cômica, eu gostei, até porque a proposição é irreal. A brincadeira, contudo, acaba com o perfil controlador do Christian Grey demonstrado no início, pois a menininha consegue brincar com ele de pique-pega, no assino ou não assino, para “fugir da ameaça”, mas nem isso é envolvente. Um bom exemplo desse jogo fugitivo é representado por Dominique Swain em Lolita (1997), já em 50 Tons se torna encheção de linguiça.

Os protagonistas não têm apelo sexual. Poderíamos discutir os receios dos casais por fetiches e fantasias sexuais, mas não há pano para isso, eles passam longe do movimento BDSM. Só observo o perfil de uma mulher perdida tentando se achar na submissão ao outro, mas ela não precisa assinar nenhum contrato para confirmar isso. Se a história é ruim e o sexo é sem sal, o que resta para este filme?

Nota 2

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