Crítica | Insurgente

Crítica | Insurgente

O maior desafio de uma saga é manter o fôlego até o final. Após a estreia e a surpresa de conhecer os personagens, o filme seguinte normalmente começa a revelar segredos até a resolução final. Baseado no segundo romance de Veronica Roth, Insurgente perde para o seu antecessor (Divergente), pois não consegue captar e transmitir a essência da história, além de deixar muitos pontos vagos.

A mudança da direção (saiu Neil Burger, entrou Robert Schwentke) alterou a perspectiva do filme. Desde o começo, o festival de efeitos especiais domina a tela e, diferente do anterior, o desenvolvimento da protagonista Tris (Shailene Woodley) fica em segundo plano para dar espaço a sequências e mais sequências de ações sem tempo para reflexão. A opção é estranha, pois se tratava de um filme com temática política, além de descobertas e mistérios sobre esta nova sociedade, ou, pelo menos, era assim que eu imaginava.

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No início, Tris está abalada com as mortes do final do primeiro longa e sua culpa parece um fardo muito pesado. Por outro lado, os roteiristas esqueceram que a protagonista tomou um tiro no ombro no último filme, ela briga, pula, dá cambalhota e nada a incomoda. Este é apenas um dos erros de sequência da saga. É natural alterar alguns acontecimentos em uma adaptação, mas são muitos os desencontros.

O personagem Quatro (Theo James), por exemplo, anteriormente sempre justo, se torna um assassino impiedoso, pelo menos, por uma cena. Aliás, Theo James aparece como coadjuvante nesta trama. Não toma nenhuma decisão e até o reencontro com sua “falecida” mãe é insosso. Já vimos no primeiro filme o quanto o ator é imitado, mas seu personagem tem importância e retirar seu peso dramático apenas piora a história.

A sua relevância está justamente no jogo de interesse entre o seus pais, no entanto, o filme nem apresenta o confronto entre Evelyn (Naomi Watts) e Marcus (Ray Stevenson). Uma perda para os espectadores. Já os representantes políticos que deveriam tomar a iniciativa para reestruturar o governo são omissos e deveras passivos, em contrapartida, no livro, eles se unem para derrubar a líder da Erudição (Kate Winslet).

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No panorama geral, a sociedade está desintegrada, um líder quer se sobrepor aos outros e ser tornar um tirano, enquanto quem está fora do poder acredita ser a melhor hora para tomá-lo para si. O jogo político, entretanto, fica muito mal trabalhado na história e sai pela tangente com a construção de um vilão supremo na figura de Jeanine.

Em Insurgente, observo um interesse muito maior em reproduzir cenas de ações do que reflexão política para os jovens. Há muitas traições e jogos de interesses deixados de fora. Os próprios conflitos pessoais são pouco desenvolvidos. No primeiro filme, Tris estava aprendendo a enxergar este novo mundo e a gente o acompanha pelo seu olhar, pois, antes, ela apenas seguia o padrão vigente e agora encara a possibilidade de novos modelos de vida. Nesta sequência, todavia, ela não questiona mais nada, apenas age por impulso e sem ouvir ninguém.

Seu amadurecimento narrativo é apagado e ela parece uma criança malcriada que apenas repete que precisa matar Jeanine. Shailene segura a onda e ainda emociona – lá no início -, mas o que aconteceu com a inteligência da protagonista? O livro não é tão bom, mas é muito mais embasado do que o filme sugere, além disso, novamente a violência é moderada para não aumentar a classificação etária ou não tornar a história tão sombria quanto deveria ser.

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Apenas quem gostou muito do primeiro filme e os leitores do livro vão tirar algum proveito da produção, pois, o enredo deixa o espectador sem entender nada. São muitas interrogações: eles não têm uma estratégia de ataque? Eles querem o sistema de facção reestabelecido? Querem sair da cidade? Desejam outro modelo de governo? Socialismo ou capitalismo?  A única com objetivo traçado é a Jeanine: abrir a caixa encontrada na casa de Natalie Prior (Ashley Judd) e o longa se resume a isso.

Insurgente é um filme raso, perdido no meio de uma ideologia mal estruturada. A pouca criatividade da história é apagada nesta continuação. Parece que o modelo de facções, seu grande potencial, se deslocou como pano de fundo. Infelizmente, há mais duas sequências, e acredito que este é um dos motivos do fraquíssimo roteiro suprimir tantas informações. Será que vão consertar os erros deste engodo nos próximos?

Nota: 2.5

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