Crítica | Cinderela (2015)

Crítica | Cinderela (2015)

Após 65 anos, o clássico da Disney Cinderela ganha uma versão live action com nenhuma novidade. A pergunta principal é por que recontar uma história para meninas de oito anos da mesma maneira que no século passado? Depois dos contos de Branca de Neve e Bela Adormecida receberem uma nova roupagem – vide Branca de Neve e o Caçador (2012) e Malévola (2014) -, o conservadorismo segurou as rédeas desta versão contemplativa de Kenneth Branagh (Operação Sombra – Jack Ryan).
Até a animação Frozen – Uma Aventura Congelante (2013) trouxe uma mensagem mais edificante e atual às fábulas. Agora, Cinderela retrocede grandes passos ao expor uma ideia bem ultrapassada de “encontrar a felicidade”. Infelizmente, o desenho de 1950 tem mais vigor e é menos cansativo que esta versão.
Já nos primeiros minutos é difícil não se encantar com o mágico cenário cheio de cores e detalhes. A brisa balança as folhas, os cabelos, tudo é bonito e a pequena Ella é demasiadamente feliz ao lado dos pais. A narradora, na voz de Helena Bonham Carter, conta tudo que nos interessa da vida da menina e anuncia a aproximação de tempos sombrios com a chegada de uma doença.
Nos seus últimos suspiros, a mãe (Hayley Atwell) passa o ensinamento “tenha coragem e seja gentil”, reproduzido de maneira exaustiva durante todo o longa. Ella (Lily James), no entanto, entende como “seja passiva e submissa”. A menina cresce apenas com o pai comerciante (Ben Chaplin) e seus empregados na enorme casa. Um belo dia, ele comunica que decidiu seguir em frente e uma bela viúva (Cate Blanchett) e suas duas filhas – Drisella (Sophie McShera) e Anastasia (Holliday Grainger) – virão viver com eles.

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A doce e ingênua Ella recebe muito bem os seus novos familiares, contudo, desde o primeiro momento as jovens sentem inveja dela e a madrasta, ciúme. O tratamento diferenciado não causa nenhuma indignação em Ella, a menina simplesmente interpreta que ser corajosa e gentil é se submeter à vontade do outro sem questionar. Ela serve as irmãs postiças e a madrasta de bom grado, sabe que não é certo, mas não se aborrece, continua seus afazeres e não se permite nenhum momento de revolta ou raiva. Questiono se a madrasta também escondeu suas roupas, porque Ella usa o mesmo vestido todos os dias.
Desde quando gentileza é limpar sujeira, lavar a roupa e comer as sobras dos pratos dos outros? O único momento de real gentileza é quando ela dá de beber a uma velha senhora perto de sua casa. Todas suas outras ações são exemplos de servidão. Com a morte do pai, a situação de Ella piora, pois a jovem não tem voz, não sabe requisitar o que é seu e nem mostrar a sua opinião.
Aliás, apesar de todo esplendor de cores, vestidos e carruagens, o filme não consegue transmitir um segundo de emoção, nem quando a morte se faz presente. É difícil torcer pela pobre menina porque ela não causa empatia. Até o encontro com o príncipe é sem brilho. Por falar nele, o príncipe podia usar menos maquiagem, a cara embonecada do ator Richard Madden causa estranheza, assim como a cintura de Ella no seu vestido de baile. Cadê as costelas da atriz?

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Além disso, nunca vi príncipe mais engomadinho e sem personalidade. O personagem apenas troca uma dúzia de palavas com uma mulher no bosque e passa a pensar nela o tempo inteiro. Só isso, basta a mulher ser bonita para um homem se apaixonar, não é?
Na mesma onda, basta Ella olhar para o príncipe que já se sente mil vezes mais feliz e, de repente, todos os seus problemas desapareceram. O resto da história todo mundo conhece e nada é modificado. A melhor cena é a da Fada Madrinha, apenas por causa da irreverência de Helena Bonham Carter, pois falta animo em todo o elenco. Até mesmo a madrasta de Blanchett é passiva, parece mais que ela deixa Ella sucumbir do que impõe algo a menina.
Vejo como um retrocesso uma personagem feminina tão sem amor-próprio, ela não pensa em nada, não foge, não se move, até os ratinhos são mais espertos.  Sem a figura do pai, Ella precisa de uma marido para deixar de ser humilhada e, assim, o príncipe se torna o “herói” do conto. Em pleno 2015 é essa história que queremos perpetuar no imaginário infantil e feminino? Cinderela mistura um cenário esplêndido, uma bela trilha sonora a um conceito ultrapassado e limitado.

Nota 2,5

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