Crítica | Não Olhe Para Trás

Crítica | Não Olhe Para Trás

É raro se deparar com uma história simples e cativante, que te mostra o lado obscuro da vida, mas também te dá um sopro de esperança. Não Olhe Para Trás (Danny Collins) é um desses filmes em que você não cria a menor expectativa, no entanto, pode se encantar profundamente com as palavras, os gestos e os olhares em cada cena.
Tudo se inicia na década de 1970, quanto um estreante da música começa a fazer sucesso e um jornalista publica uma matéria sobre o seu medo diante da galopante fama e dinheiro futuros. Sem malícia, o jovem artista admite ter receio do seu sucesso na indústria fonográfica. Lá se vão 40 anos e o jovem compositor em questão se torna o fenômeno sexagenário Danny Collins (Al Pacino).

Danny Collins

Com uma música que sacode multidões, o cantor não lança nada novo há 20 anos e vive de coletâneas e turnês com a mesma canção Hey, Baby Doll. Ele mesmo detesta sua vida de sucessos passados e fracassos presentes, apesar de todo império construído. Preste a se casar pela quarta vez com uma mulher muito mais nova, imerso ao álcool e às drogas, Danny recebe no seu aniversário um presente inesperado que o faz repensar toda a sua trajetória nas últimas quatro décadas.
Não é de hoje que vemos histórias de reconstrução de vida, entretanto, aqui não é possível voltar ao passado. Ele é que vem ao encontro do músico por meio do significativo presente do seu amigo e empresário Frank Grubman (Christopher Plummer). Após anos, Danny recebe uma carta de John Lennon, na época da tal entrevista do início do filme, com um conselho e um telefone de contato.
Uma longa noite se passa e o músico não consegue parar de pensar sobre o que teria sido da sua vida se ele tivesse recebido a carta na juventude. Como o texto foi endereçado à revista, o editor guardou e vendeu por um grana a um colecionador de Lennon.

Nao Olhe Para Tras1

As cartas não entreguem aos destinatários já foram estopim de romances e tragédias, vide Romeu e Julieta, de Shakespeare. Nesta comédia dramática, ela é uma estrada para simples reconquistas, conduzida magistralmente por Al Pacino. O seu personagem é forte e dinâmico, muito por sua competência em segurar a ironia e a melancolia lado a lado sem nunca perder o tom.
O acontecimento da carta de John Lennon é verídico, no entanto, ocorreu com o compositor folk Steve Tilston e sua vida real não é retratada no filme. Já o personagem Danny Collins resolve abandonar sua futura esposa e turnê para se dedicar a projetos pessoas em Nova Jersey. A partir dessa guinada, a história ganha mais entusiasmo e ótimos coadjuvantes, interpretados por Annette Bening (Mary Sinclair), Bobby Cannavale (Tom), Jennifer Garner (Samantha), Melissa Benoist (Jamie) e a pequena Giselle Eisenberg (Hope).
As principais atribuições de Danny neste período, hospedado em um quarto de hotel, é conquistar o filho que nunca tinha visto, jantar com a gerente Mary e compor novas canções. É claro que as coisas vão funcionando, com um jogo de cintura aqui e ali, cenas impagáveis e realmente engraçadas de Pacino, somadas a irreverência da atriz mirim Giselle Eiseberg.
É emocionante passar por este estágio de encantamento e perceber que determinadas mudanças apenas ocorrem se partirem de você mesmo, contudo, precisa-se de ímpeto e determinação. Essas duas palavrinhas são essenciais nesta mudança. Não Olhe Para Trás não apresenta um mar de rosas e final feliz, mas deixa, com suavidade, a ideia para lidarmos de forma sistêmica com os nossos dilemas. A cena final é de uma poesia raramente vista e faz com que qualquer espectador termine com um sorriso no rosto.

Nota: 4

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