Crítica | Chappie

Crítica | Chappie

Ficção científica, crítica social, reflexão, humor, alusões cinematográficas e autorreferências são algumas das composições do terceiro filme do sul-africano Neill Blomkamp. Se você assistiu às suas duas primeiras obras – Distrito 9 (2009) e Elysium (2013) -, vai se sentir em casa, pois Chappie é uma junção fantástica de ambas as ideias.
Novamente, o diretor coloca sua cidade natal Johannesburg como cenário da trama e propõe uma discussão sobre inteligência artificial e consciência humana em um panorama de violência e opressão. À primeira vista é fácil fazer uma associação com Robocop, uma vez que a sociedade é patrulhada por robôs da força policial, poupando a vida de policiais humanos e dificultando bastante as ações da população à margem da lei.

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É exatamente a partir desse quadro que se inicia o filme. Um grupo de contrabandistas foge numa van para entregar uma mercadoria ao traficante Hippo (Brandon Auret). A carga, entretanto, é completamente danificada. Impiedoso, Hippo quer o dinheiro do seu carregamento – apenas alguns milhões – em cinco dias. Em contrapartida, não é fácil cometer crimes em uma cidade com vigilância sobre-humana.
Logo de cara, Chappie apresenta muita ação com boas tomadas de tiroteio e personagens interessantes do submundo do crime. Ninja (Ninja) e Yo-Landi (Yo-Landi Visser) roubam a cena com seu visual e suas armas coloridas. Escolhidos a dedo pelo diretor, os dois cantam juntos no dueto Die Antwoord e são naturais da África do Sul. Além dos papéis de destaque, suas canções estão presentes durante a trilha sonora do filme.

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Segundo entrevistas do Blomkamp e até de atores, trabalhar com Ninja foi deveras difícil, entretanto, em cena não é perceptível nenhum deslize do artista que se apresenta com um verdadeiro criminoso em seu jeito e linguajar. Quando escolheu a dupla para o filme, Blomkamp queria realmente captar a essência do movimento de contra cultura sul-africana, em que os pobres de pele branca (em maioria) se apresentam por meio de tatuagens, dentes de outro e joias para se destacarem. Conhecemos o gênero “ostentação” por aqui também.
Por este viés, mais uma vez, o diretor nos faz refletir sobre a desigualdade social e preconceito, só que agora a partir do encontro entre os marginais e o desenvolvimento tecnológico. Por trás de toda a ideia e sensação de segurança, claro, há uma grande corporação faturando milhões. Dentro desse ambiente, existe o ambicioso e invejoso Vicent Moore (Hugh Jackman), que vê o seu projeto renegado pela companhia, porque os robôs patrulheiros do jovem Deon Wilson (Dev Patel) são um sucesso.

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Apesar da já realizada conquista, Deon decide ir mais longe e trabalha na possibilidade de criar consciência em seus protótipos. Desse modo, o robô Chappie (Sharlto Copley) entra em cena e nos impõe diversos questionamentos, pois seu desenvolvimento é como de uma criança. As questões são semelhantes às apresentas em Distrito 9, no entanto, junta o preceito da ilegitimidade de se criar vida de forma artificial. É possível reconhecer as inspirações em Blade Runner (1982), Um Robô em Curto Circuito (1986) e no próprio personagem de Frankenstein, de Mary Shelley.
Ouvir as perguntas de Chappie para seu criador é nos escutarmos no cotidiano, buscando um motivo para a nossa vida e morte. É quase impossível não se simpatizar por Chappie e tornar a sua jornada a nossa própria. De maneira dolorosa e cheia de expectativas é como ver uma criança a lidar com seus primeiros sentimentos e entender as suas ações neste mundo.
Chappie nos apresenta uma estrutura para acreditar que com o desenvolvimento tecnológico tudo é possível, além de uma instigante reflexão sobre o futuro, sociedade e uma visão além do maniqueísmo. Deixei a sala de cinema felicíssima por assistir a um filme de alta qualidade de entretenimento e profundidade humana. Aqui, Blomkamp se redime de seus equívocos em Elysium e constrói sua crítica em um terreno fértil para semear muitas discussões.

Nota: 5

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