Crítica | Entre Abelhas

Crítica | Entre Abelhas

O pôster apresenta a figura de Fábio Porchat, portanto, o primeiro pensamento do espectador é: comédia. O diretor é o mesmo da websérie Porta dos Fundos, além disso, Marcos Veras, Letícia Lima e Luis Lobianco – todos do canal no Youtube – estão no elenco. Assim, Entre Abelhas, apesar do título soar meio estranho à primeira vista, tem um chamariz para o grande público. O resultado, no entanto, pode ser uma agradável surpresa ou um desapontamento.
Quem quer ver o elenco de Porta de Fundos debochando do mundo e fazendo piadas amorais vai encontrar esses elementos logo nos primeiros minutos. O início do longa está cheio de senso comum, tiradas machistas e humor televisivo, mas sem a crítica cotidiana do canal na web. Desta forma, o roteiro de Porchat e Ian SBF não assusta o espectador acostumado com Vai que Dá Certo (2013) e Meu Passado Me Condena (2013), porém, felizmente, a narrativa desencadeia novos rumos.
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Se tudo na vida se organiza em classificações, Entre Abelhas está na categoria, ou melhor, gênero comédia dramática. Aqueles filmes que fazem você rir, mas também te levam a refletir um pouco sobre a sua existência. Na pele do editor de vídeos Bruno, Fábio Porchat tem o desafio de fazer o público se divertir e também prestar atenção no drama do protagonista.
Após uma separação, contra sua vontade (vale a ressalva), Bruno está deprimido. Não vê sentido para seguir em frente e se culpa pelo rompimento. A culpa é personificada em uma cadeira vermelha, a qual ele se esquecera de comprar a pedido da esposa (Giovanna Lancellotti), quando estava na promoção. Está é a principal informação que o personagem dá ao público sobre seu estado emocional.
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Por fora, ele continua o mesmo, trabalha, socializa, mas ninguém sabe o que ocorre em seu interior, talvez, nem ele mesmo. Depois de uma noite na boate com os colegas do trabalho, Bruno começa a notar situações estranhas no seu dia a dia. O estopim é uma engraçada cena, na qual o motorista de táxi desaparece com o carro em movimento. A partir disso, Bruno decide compartilhar o ocorrido com mais alguém, neste caso, sua mãe (Irene Ravache).
As pessoas continuam desaparecendo ao redor, nas fotos, nas revistas de famosos e, claro, os constrangimentos geram cenas cômicas sobre a superfície do problema. Um psiquiatra (Marcelo Valle) entra em cena para ajudar e dar pistas sobre o sofrimento de Bruno. Ele sozinho chega à teoria das abelhas, que dá nome ao filme, no entanto, isso tampouco explica seu dilema psicológico.
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Quanto mais se aproxima do final, Entre Abelhas ganha tons mais sombrios que deixa o público na dúvida e na expectativa. Ver Bruno caminhando pelas ruas do Centro do Rio de Janeiro sozinho é de um tom poético muito surpreendente para este tipo de filme, ou para o que imaginávamos que seria. É preciso reflexão e interpretação para entender a proposta do roteiro, um desafio para o público mediano acostumado a uma apresentação depurada e sem mais delongas.
O trunfo de Ian SBF e Pochart é subverte as suas imagens publicitária e instigar o espectador a olhar para dentro da caixa e ser menos passivo ao encontro das informações. Entre Abelhas é uma história sobre separação, perda e depressão, mas não de maneira óbvia. A dor se esconde em um sintoma, nesta fábula as pessoas somem, em outros momentos, pode aparecer em um vício ou em um ato inconsequente.
O final é surpreende. Ali, se prontifica todas as possíveis associações e fica a critério do público escolher a sua conclusão, isto é, digerir e interpretar tudo o que acabou de assistir. Ou ainda, sair da sessão a reclamar de uma falta de explicação mais evidente. Isso, claro, só ocorreria por pura preguiça mental. Deixe o pré-conceito de lado, esta obra não é uma comédia rasa para amortecer a mente.

Nota: 3,5.

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