Crítica | Um Senhor Estagiário

Crítica | Um Senhor Estagiário

Existem dois assuntos relevantes explorados pela obra Um Senhor Estagiário (The Intern). O primeiro é a vida depois da aposentadoria, na qual os experientes idosos devem ser mais valorizados e respeitados pela sociedade. O segundo é a posição da mulher como empresária e uma profissional bem sucedida. Os assuntos, entretanto, descambam ao criar personagens frívolos e com pouco grau de realidade, ou melhor, autenticidade.
Ben (Robert De Niro) é um septuagenário, viúvo, aposentado, avô e bem resolvido financeiramente. Viaja, cozinha, encontra os amigos e faz yoga no parque. Apesar do tempo livre, Ben busca uma ocupação, algo para se sentir útil nos seus últimos anos. Desse modo, ele vê como uma oportunidade satisfatória um programa de estágio sênior para maiores de 65 anos em uma startup.
Se você sabe o que o termo significa, entende que é uma empresa na área de tecnologia, pouco tempo no mercado, com prospecção de crescimento e grande risco de não dar certo. Este é o perfil do e-commerce de moda comandado pela jovem Jules Ostin (Anne Hathaway). Com o crescimento acelerado da empresa, ela encara o dilema de contratar um CEO para tocar a sua criação, enquanto dedica mais atenção para a família.
Um Senhor Estagiario
A dinâmica entre a jovem empreendedora e o maduro estagiário é o grande chamariz do filme. De início, Ben se sente perdido no meio de um novo sistema trabalhista, mas logo passa a ser eficiente em todos os setores da empresa e a inspirar os jovens. Estes retratados aqui como seres totalmente sem noção ou reflexão sobre a vida. O único conhecimento deles é técnico, isto é, aprendido numa faculdade de ponta. Em seguida, Ben impacta a chefe Jules. Ambos os protagonistas são ótimos e talentos legítimos.
De Niro, no entanto, tem realizado inclusões em comédias precipitadas, como o vergonhoso O Casamento do Ano (2013), e não escapa de um personagem caricato. Já Anne Hathaway tenta dar um tom para sua personagem, mas ela muda constantemente de mulher determinada à garotinha assustada. Assim, o encontro de gerações se torna uma ação paternalista, o antigo galã aparece para resgatar a moça cheia de dúvidas sobre como proceder em sua jornada. Além disso, a família de Jules soa muito falsa e estranha em todas as cenas. A filhinha Paige (JoJo Kushner) e o marido Matt (Anders Holm) são uma apresentação mal engendrada de comercial de margarina.
Afinal, a mulher nunca pode ser bem sucedida e ter um relacionamento e família estabilizados? Se o filme queria defender o novo papel da mulher na sociedade, nesta parte ele naufraga porque a narrativa apenas inverte os sexos. Ao invés da dona de casa insatisfeita em cuidar da filha, a história apresenta o homem exatamente nesta posição. O que isso quer nos dizer? Existe um discurso raso sobre feminismo no filme, mas também é dissipado. O roteiro encaixa até a “piada” de “mulher no volante, perigo constante”, podia ter ficado de fora.
O personagem de Robert De Niro é um cavalheiro à moda antiga e diz claramente que os homens precisam andar sempre com um lenço, porque as frágeis mulheres choram em qualquer momento e é preciso estar preparado. Como se o descontrole emocional estivesse ligado ao gênero. Um Senhor Estagiário apresenta momentos engraçados, faz rir, mas também provoca situações desnecessárias e incongruentes com o próprio discurso.
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São duas horas para mostrar o desenvolvimento da relação entre Ben e Jules. É intrigante como um homem bem resolvido como ele seja tão submisso aos serviços lhe pedido sem questionamento e com grande humildade, como pegar o café e tirar mancha de roupa. É evidente, ele não necessita de nada daquilo, contudo, o ambiente social traz mais movimento para sua vida com a presença dos jovens perdidos e de um caso amoroso maduro (Rene Russo).
Com um olhar analítico, Ben toma a posição de mentor. Fala do alto de sua experiência de vida sem tempo para vergonhas, arrependimentos e fracassos, enquanto todo o resto do elenco bate cabeça, principalmente, a empresária de sucesso. Vê-la lamentar pela possibilidade do fim de seu casamento, por alguns momentos, é tocante. Ela lida com escolhas e questionamentos realmente difíceis, mas a roteirista resolve tudo de forma vazia e pífia, como uma telenovela de baixa qualidade.
O roteiro peca por escolher caminhos fáceis e pouco desenvolvimento para as questões expostas no início do texto. Escrito e dirigido por Nancy Meyers, o percurso aqui é igual aos de suas outras comédias românticas, como Simplesmente Complicado (2009) e Alguém tem que Ceder (2003). Aqui, podemos até fazer um paralelo com os papéis de Iris (Kate Winslet) e Arthur (Eli Wallach) em O Amor Não Tira Férias (2006). Em ambos as mulheres tentam dar a volta por cima, mas necessitam de uma figura masculina para ajudá-las a se reerguerem.

Nota: 2,5.

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