Crítica | A Travessia

Crítica | A Travessia

Obsessão. Esta palavra define a vida do equilibrista francês Philippe Petit (Joseph Gordon-Levitt) e sua façanha histórica nos Estados Unidos. Todos os momentos mágicos do filme de Robert Zemeckis poderiam ser ficção e, mesmo assim, seriam fascinantes, como em suas obras De Volta Para o Futuro (1985), Forrest Gump (1994), Náufrago (2000) e tantas outras. Por outro lado, A Travessia (The Walk) tem um tempero a mais por se tratar de uma história verídica e encantadora.
Em 2008, o acontecimento foi apresentado ao público no documentário O Equilibrista (Man on Wire), de James Marsh. Os fatos por si só já são fantásticos e os depoimentos nos ajudam a remontar a cena e as impressões, contudo, Zemeckis quis ir mais longe. O prestigiado diretor nos coloca para sonhar junto com Petit e retrata a sua história como uma fábula, na qual a moral pode ser: não importa o quanto louco seja o seu sonho, tente realizá-lo.

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Desta forma, conhecemos um jovem impressionado pelo desafio, o equilíbrio e a altura. Philippe não queria apenas ser mais um, buscava ser o único. Pela interpretação de Gordon-Levitt, observamos um homem temperamental, obcecado e metódico, além de se importar muito pouco com convenções ou impedimentos. Não há limite para os sonhos e a imaginação, no entanto, para apalparmos nossos objetivos existem diversas barreiras entre o querer e o poder.
Philippe sonhava em se apresentar para um grande público, mas nunca teve a chance de ter uma plateia no circo. Por outro lado, neste ambiente, ele conheceu Papa Rudy (Ben Kingsley), seu grande mentor por toda vida. Rudy o ensinou tudo sobre como preparar uma exemplar apresentação nos cabos de aço. Para narrar a conquista do homem que atravessou no céu as Torres Gêmeas, Zemeckis recriou todos os pormenores da ousada ação.
A Travessia se torna interessante exatamente porque conhecemos as ambições e os temores de Philippe Petit e todos os seus cúmplices, como o próprio os descreve. A começar pela bela e prestativa Annie (Charlotte Le Bon), seguido do amigo e fotógrafo Jean-Louis (Clément Sibony). As relações não são muito exploradas, mas os sentimentos vêm à tona conforme os planos de Petit são moldados.

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Cada personagem tem uma faceta bem marcada no filme, sempre entre a comicidade e a tensão. Algo muito bem trabalhado em cena e no desenvolvimento do enredo, como o medo de altura de um ou malandragem de outro. Desde o início, Philippe Petit narra seu percurso, muitas vezes do alto olhando para câmara e, por vezes, em off, nos apresentando o seu destino. A princípio, não me simpatizei com o recurso, pois o vi como uma maneira de explicar sensações que não veríamos na tela. De fato é o que ocorre.
Em contrapartida, para saber o que se passava na cabeça do artista, teríamos que ouvi-lo. Quando a ação se deflagra, ou seja, na preparação para suspender o cabo e iniciar a travessia, seu relato faz toda a diferença. E sua apresentação para câmara se torna desejada, assim como um mestre de cerimônias, afinal, estamos presenciando um espetáculo.

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O visual recriado é realmente encantador e nos coloca lado a lado com a loucura de um homem. Em 1974, Petit cometeu um crime antes inimaginável, invadiu o World Trade Center, ainda em fase de construção e calculou cada passo até o fatídico dia. Muitas variantes poderiam ter dado errado, mas foi um sucesso e entrou para história mundial. A gente observa ele caminhar com tanta leveza, sentar, deitar, balançar e é impressionante como um ser humano pode desafiar o vento, a gravidade e garantir o seu próprio equilíbrio contra a natureza.
A versão em 3D vale a pena, muito por conta das cenas em cima das Torres Gêmeas, é possível ter uma aproximação e definição de cada passo e movimento. É satisfatória a sensação de acompanhar o alívio de Petit ao concluir seu próprio desafio, ou melhor, por lutar para realizar um sonho. Aprecio muito o trabalho de Gordon-Levitt, ele teve que imergir no corpo de um francês destemido e louco. Sua atuação é performática, quase teatral, mas credito que era assim que o personagem era na realidade. No cinema, entretanto, soa pouco natural.

Nota 3,5/ 5

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