Entrevista | Guilherme Fontes e o caso Chatô

Entrevista | Guilherme Fontes e o caso Chatô

Aos 48 anos, Guilherme Fontes se sente realizado por apresentar ao público a sua empreitada cinematográfica iniciada ainda quando era apenas um jovem ator da TV Globo. Após 20 anos de polêmicas, processos, difamações e multas milionárias em jogo, Chatô, o rei do Brasil estreou no dia 19 de novembro no Rio de Janeiro e São Paulo e dia 26, em Brasília, com aclamação da crítica e grande aceitação do público cinéfilo.
Com tanto falatório envolvido, o lançamento do filme se tornou um evento de grades proporções. O que motivou o próprio diretor, também produtor e ator, a estar presente na cabine de imprensa do Rio de Janeiro para sentir a reação dos críticos antes da estreia. Por este motivo, tive a oportunidade de ter um conversa informal com Guilherme Fontes sobre as expectativas, as especulações ao redor do filme e a sua visão sobre o mundo e a política.
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Para realizar a adaptação livremente inspirada – como Guilherme gosta de ressalta – na obra homônima de Fernando Morais, o diretor captou dinheiro pela Lei Rouanet, Lei do Audiovisual e obteve o patrocínio da Petrobrás. Com a postergação da edição final e distribuição do material, Guilherme foi acusado do uso indevido de dinheiro público. “Ninguém acreditava que eu ia entregar este filme, todo mundo achava que ia ser o maior golpe”, declara já aliviado por serem águas passadas na sua vida.
“Quando você termina de produzir um filme, você está exausto, mas ainda tem que pensar na distribuição. Se aparece alguém oferecendo o serviço de distribuir, você assina um contrato e deixa na mão do cara, mas eu tomei muitas voltas”, comenta Fontes.
Antes disso, ele aponta que tinha um material bruto de horas de filmagens que realmente demorou a editar. “No primeiro corte eram mais de três horas de filme, mas eu não ia fazer isso com o público. Eu não aguento mais de duas horas de projeção. Quero que as pessoas desfrutem de um bom momento e depois vão ler o livro”. O diretor deixa bem claro que é uma comédia escrachada sobre Assis Chateaubriand sem nenhum compromisso com a veracidade dos fatos.
“Eu não quero mais nada com esta história, nunca teria paciência para fazer uma segunda parte. Eu só desejo que o público fique curioso, tanto a ponto de comentarem sobre o filme. Depois de tanto tempo, está lindo, está interessante. É a história do maior magnata do Brasil”. Ele ainda reforça que é um filme sobre o patrão, raro no cinema brasileiro, já que o mais recorrente é falar do ponto de vista do empregado, da “ralé”, de acordo com a própria expressão do ator.
Segundo Guilherme, devia ser obrigatório para todos os jornalistas lerem o livro de Fernando Morais na faculdade. “Falar da mídia, dessa manipulação é necessário. Como uma empresa privada, com concessão pública, pode manipular todos de acordo com o seus interesses?” e compara com uma atual ocorrência do jornal O Globo: “No caso do filho do Lula, como pode um jornal dar como capa algo que nunca foi falado. Não afetou O Globo e não afetará, porque todo mundo queria ver essa porrada no ex-presidente, mas o medo do processo falou mais alto e eles se retrataram”.
Com um roteiro cômico, Fontes – em parceria com Matthew Robbins (indicado por Francis Coppola, que também deu pitacos na produção) – realmente consegue explorar os caricatos casos e abuso de pode de Chateaubriand. Ele é representado como excêntrico, mulherengo, manipulador e, sobretudo, convencido magnata da comunicação. De acordo com o enredo do filme, o fundador dos Diários Associados sempre acreditou estar em cima do poder e da lei. Suas provocações e insubordinações são gritadas em cada cena.
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“De um modo ou de outro, consegui fazer o filme sobre o que eu queria falar e, o mais importante, podia. Sofri bastante censura por mexer em algumas esferas”, relata Fontes e arremata: “Todo mundo deveria conhecer essa história e entender que a mídia deve ser regulamentada”. Em uma das sequências marcantes, o filme mostra como “Chatô” difamou o presidente Getúlio Vargas de corrupto nos jornais por pressupor um envolvimento amoroso do político com sua amante Vivi Sampaio (Andrea Beltrão).
O diretor lembra-se do alto gasto ainda com publicidade e acredita que o mercado carioca aceitará melhor a obra. Apesar de toda a polêmica, o resultado do primeiro final de semana foi pouco animador. Em 12º lugar no ranking de filmes, o longa nacional arrecadou apenas R$ 200 mil e vendeu 11,6 mil ingressos, de acordo com dados do site Filme B, sendo que a produção custou em torno de R$ 8 milhões.
De todo o modo, Chatô – O Rei do Brasil se estabelece como um filme imperdível, com uma linguagem dinâmica, não-linear e impressionante. Distante do modelo nacional de cinema, a obra foi lançada em um momento certo para o país. Sob alguns aspectos, infelizmente, o Brasil permanece o mesmo de 60 anos atrás. “Eu ressuscitei quando ninguém mais esperava, assim como os meus personagens na televisão tempos atrás”, compara Fontes.

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