Crítica | Esquadrão Suicida

Crítica | Esquadrão Suicida

Sabe quando você acaba de escrever um texto, revisa e acha que não está bom? A gente, então, reescreve, troca conectivos, elimina parágrafos inteiros, tudo para dar mais coerência ao leitor, não é mesmo? Responsável pelos ótimos Corações de Ferro (2014) e Marcados Para Morrer (2012), o diretor e roteirista David Ayer esqueceu essa lógica em Esquadrão Suicida (Suicide Squad) e nos apresenta um filme mal aparado.
Se o trailer ao som de Bohemian Rhapsody, de Freddie Mercury, deixou todo mundo extasiado, a versão estendida, ou melhor, o filme em si comprovou que o marketing é a alma do negócio, mas não a qualidade do produto. O conjunto Warner e DC Comics novamente errou na receita ao misturar ótimos ingredientes, mas não desenvolver a massa.
Esquadrão Suicida
Primeiro, a linha temporal é desorganizada, com poucas pontuações dos acontecimentos na narrativa e exagerados flashbacks. A premissa do enredo é a suposta morte do Homem de Aço (Henry Cavill) em Batman vs. Superman: A Origem da Justiça (2016). A partir disso, a agente Amanda Waller (Viola Davis) acredita que a nação estadunidense corre perigo e arquiteta um plano para utilizar os maiores vilões apreendidos na proteção do país.
Após apresentar os candidatos a Dexter Tolliver (David Harbour), Waller instiga o aparecimento da bruxa milenar que habita a arqueóloga June Moone (Cara Delevingne) para comprovar o seu ponto de vista. De modo que a própria agente é quem traz a ameaça Magia/ Enchantress para cidade e a deixa escapar do controle do estado.
Assim, a união dos perigosos assassinos passa do planejamento para a ação em um piscar de olhos, pois surge um ser sobrenatural matando todo mundo no metrô, construindo um exército de Orcs e enviando raios para o além. Acredito que como é o próprio governo que pisa na bola, nenhum super-herói aparece para acalmar a situação. Tudo fica por conta do exército e dos vilões.
Jared Leto como Coringa em Esquadrão Suicida
Infelizmente, o longa é foca bastante na figura do Pistoleiro/ Deadshot (Will Smith) e no raso drama dele com a filha, além de suas piadas sobre discursos motivacionais. Apenas em uma cena de tiros incessante contra o exército de criaturas, o personagem mostra o seu potencial e cria um bom vínculo com Arlequina (Margot Robbie), mas para por aí. O personagem não merecia tanto destaque dentro de um elenco gigante.
A grande geradora de empatia na telona é Arlequina. O seu nascimento a partir do relacionamento com o Coringa/Joker (Jared Leto) daria um filme maravilhoso apenas com eles. No fim das contas, os melhores momentos são deles, ou melhor, de Margot Robbie. Isso porque a esperada atuação de Jared Leto decepciona e o trono de interpretação memorável continua com Heath Ledger (Batman: O Cavaleiro das Trevas).
Aqui, o Coringa é um coadjuvante em terceiro plano, ele faz parte da história da Arlequina, tanto que todo seu envolvimento na trama é apenas para resgatá-la da prisão. É interessante ver como a loucura de Arlequina se instaurou e, portanto, sua obsessão pelo Coringa – seu amado Puddin – se justifica até com direito a coleira no pescoço.
Uma das cenas mais bonitas visualmente é quando Arlequina se joga em uma piscina de ácido para provar sua devoção ao Coringa; ele pula para resgatá-la e vemos as cores de suas roupas se dissolverem e, consequentemente, se tornaram o azul e o rosa dos cabelos da louca vilã.
Já os outros personagens têm rápidas apresentações em fragmentos, como Capitão Boomerang (Jai Courtney), Killer Croc (Adewale Akinnuoye-Agbaje) e Slipknot (Adam Beach). El Diablo (Jay Hernandez) até ganha mais detalhes para entendermos a sua redenção à polícia, mas o momento da revelação se torna um dos mais modorrentos do filme.
Margot Robbie como Arlequina em Esquadrão Suicida
Katana (Karen Fukuhara) parece uma figurante, assim como o tenente Edwards (Scott Eastwood). E, apesar de ter tido mais destaque, Rick Flag (Joel Kinnaman) não convence como um cara apaixonado. Em contrapartida, Viola Davis defende com vigor sua personagem e, na realidade, o maior spoiler deste filme é dizer que a grande vilã psicopata é ela.
Outro ingrediente esquecido foi uma boa luta. O combate até existe entre alguns soldados de pedras, facilmente derrubados, e os grandes vilões, mas eles parecem piada. Cara Delevingne (Cidades de Papel) como a poderosa Magia não faz nem criancinha de três anos chorar e a sua inexpressividade nos deixa impacientes e bocejantes.
Esquadrão Suicida tenta ser uma versão de Guardiões da Galáxia (2014), mas nem de longe tem a mesma vivacidade e graça dos personagens. As semelhanças se limitam ao politicamente incorreto e uma ótima trilha sonora. Fora todas as observações anteriores, os efeitos são simples para uma superprodução e o 3D parece irrisório na montagem final.
Em uma noite, os vilões mais temidos são soltos para ajudar o governo e sabe o que acontece? Eles se tornam amigos, bebem no bar, se respeitam e até já acreditam terem constituídos uma nova família. E a gente apenas grita silenciosamente: é sério isso?!
As tentativas de conexões soam demasiadamente forçadas – vide a cena pós-créditos -, e não tem nenhum minuto de apreensão ou mistério. Ao invés de ver um filme sobre a formação do Esquadrão Suicida, presenciamos o episódio de um seriado em que o grupo de malfeitores derrota o inimigo da vez. O que pode ser bom para os fãs dos personagens, mas bastante simplório para os novos espectadores.

Nota: 3/ 5

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