Crítica | Aquarius

Crítica | Aquarius

Após quatro anos de O Som ao Redor (2012), Kleber Mendonça Filho já inspirava grandes expectativas por conta do sua narrativa peculiar e autoral. Com Aquarius, o cineasta consegue ir mais longe, isso porque além da sua genialidade crítica sobre o social e as relações de poder, ele nos apresenta um personagem arrebatador, esculpido perfeitamente por Sonia Braga.
Diferente do seu primeiro longa, Mendonça Filho coloca a narrativa em foco na jornalista, mãe e lutadora Clara (Sonia Braga). Um papel, provavelmente, escrito exatamente para a belíssima atriz de 66 anos. Com ela, a gente acompanha o desenvolvimento de um embate entre o antigo e o novo, o obsoleto e o moderno, fio condutor de todo o suspense do filme.

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Dividido em três capítulos, Aquarius começa com um flashback nos anos de 1980, em que Clara (Barbara Colen), junto com o irmão e amigos, está em uma praia e eles vão para celebração da festa de 70 anos da Tia Lúcia, a matriarca da família. Homenageada pelos netos e sobrinhos, Lúcia ouve sua história ser contada, entre casos e lutas.
Durante o momento de celebração, o marido de Clara expõe a sua vitória sobre o câncer de mama e vemos os cabelos curtinhos da jovem se transformarem nas longas e brilhantes madeixas de Sonia Braga. Assim, o capítulo I – O Cabelo de Clara – representa o símbolo de resistência dessa mulher. Observamos o seu dia a dia, entre um banho de praia e o diálogo sobre o almoço com a empregada. Aos poucos, sua leve vivência é invadida pela insistência de uma empreiteira em comprar seu apartamento.
Seu maior combatente é o jovem ambicioso Diego (Humberto Carrão), que faz o tipo canalha galanteador. Uma das melhores cenas deste longa é  uma discussão entre ele e Clara. O ator de 25 anos tem participações pequenas, no entanto, sempre que aparece brilha e compõe seu personagem com um sorriso malicioso e olhar de águia, sedutor e perigoso.

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Sozinha em um pequeno condomínio em frente à praia de Boa Viagem, em Recife, Clara resiste impávida. Aqui, o diretor e roteirista constrói uma visão da verticalização da orla da capital e sua degradação em torno. O que nos leva a refletir como a memória é destruída em busca das novidades e vai se perdendo na história. Clara é símbolo de memória, história e resistência.
Mendonça Filho tem um domínio de câmera tão poderoso que cada enquadramento nos revela um pouco mais da trama. Se deixe levar pela sutileza de cada enquadramento e o que ele tem a te dizer. O suspense perpassa por várias cenas criando uma atmosfera de tensão, como se o próprio prédio fosse expulsar Clara dali.
O segundo capítulo, O Amor de Clara, retrata a sua relação com os filhos, a empregada, as amigas e as reminiscências do seu percurso como uma grande crítica musical. Dali, começamos a entender a sua simbiose com o apartamento e a sua luta por ele.

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Nessa etapa, Clara revela sua dificuldade para lidar com as marcas da doença. Logo no início, nos é revelado o seio amputado, mas o fardo só aparece quando Clara tenta viver sua sexualidade plenamente. Os mais puritanos podem falar dos excessos de exposição, mas todo o roteiro é perfeitamente engendrado. São duas horas de projeção pautadas de forma paulatina até chegarmos ao ápice.
Além do conflito entre o novo e o velho, o diretor propõe várias reflexões sobre as nossas relações sociais, desde a vista grossa para os traficantes bem nascidos quanto da impunidade sobre a morte de um cidadão sem posses. Com menos intensidade que em O Som ao Redor, Kleber também explora o psicológico dos personagens, nos quais as memórias e os sonhos nos aterrorizam.

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A trilha sonora é um elemento quase como uma narradora onipresente. Ela conta a história pelo seu viés e permeia os personagens, como eles se sentem, pensam e lidam com determinadas questões. A música inicial – Hoje, de Taiguara, ecoa pela nossa mente como um mantra: “Eu não queria a juventude assim perdida. Eu não queria andar morrendo pela vida…”
No capítulo III – O Câncer de Clara, a personagem se expõe para luta, mais uma entre tantas na sua vida. Aqui, nada tem a ver com doença patológica, mas com os excessos da vida. A frase final é emblemática e fecha a narrativa de forma certeira. Logo após o desfecho, a vontade é de aplaudir de pé. Você se envolve, se identifica, se prende ao enredo e é arrebatado em diversas cenas, principalmente, no grand finale
Apesar do reino soberano de Sonia Braga, seus coadjuvante compõem essa ópera com maestria, vale destacar Irandhir Santos (Permanência) e Maeve Jinkings (Boi Neon). Aquarius entre para a história como uma das produções mais relevantes e belas do cinema nacional.

Nota: 5/5

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