Crítica | A Garota no Trem

Crítica | A Garota no Trem

Mais um sucesso literário chega aos cinemas com a adaptação A Garota no Trem (The Girl on the Train), escrito pela jornalista Paula Hawkins. Após o sucesso de Garota Exemplar (Gone Girl, 2014), o diretor Tate Taylor (Histórias Cruzadas) e a roteirista Erin Cressida Wilson (Homens, Mulheres e Filhos) tentam trazer novas amarras e pontos de vistas sobre o suspense e o drama em relacionamentos amorosos.
A comparação com o romance de Gillian Flynn vai além do nome, pois temos novamente uma trama entre casais, mas o suspense é montado de outra maneira. Assim como no livro, o filme é contato por três narradoras: Rachel (Emily Blunt), Megan (Haley Bennett) e Anna (Rebecca Ferguson). Cada uma envolvida em suas tragédias pessoais e ligadas por um acontecimento.
Girl on a Train, The
A principal narradora da trama é Rachel. É com ela que acompanhamos e desenhamos a maior parte das nossas percepções nesta história. Ela conta de suas desilusões com o casamento desfeito, a falta de perspectiva para sua vida, o consumo descontrolado de álcool e sua obsessão por um casal de desconhecido que ela diariamente observa do trem na sacada e nos cômodos da casa deles.
Ao invés de ler romances ou acompanhar telenovelas, Rachel preenche seu vazio com a idealização de um relacionamento perfeito projetado pela beleza desse casal. Assim, do trem, indo e vindo, bebendo vodka, whisky ou qualquer outro componente etílico, a ex-esposa de Tom (Justin Theroux) passa o seus dias nos últimos dois anos desde a separação.
a-garato-do-trem-3
Antes de descobrir mais sobre Rachel, a narrativa volta no tempo na voz de Megan. Jovem e sensual, ela desabafa com um terapeuta sobre sua atual falta de ânimo em viver. Depois de desempenhar tantos papéis na vida, Megan se encontra no de esposa, mas não está contente com isso. Seu marido Scott (Luke Evans) é do tipo controlador e ciumento, desde o casamento ela largou o emprego em uma galeria de arte e ele controla seus e-mails e redes sociais.
Nas sessões com Dr. Kamal Abdic (Édgar Ramirez), Megan expõe seus segredos mais guardados ao mesmo tempo em que tenta seduzi-lo. É assim que ela sente que tem que se relacionar com os homens, somente por sexo. Por um tempo, para afastar o tédio, ela trabalha como babá para Anna, sua vizinha, atual esposa de Tom e mãe da bebê Evie.
Como terceira narradora da história, Anna apresenta seu incomodo com a presença constante de Rachel na sua vida familiar. Ex-amante de Tom, ela acredita ter uma vida estável, mas ameaçada pela falta de compostura da ex-esposa de seu marido. Apresentado desse modo, temos três mulheres pouco felizes, mas levando a vida como pode até ocorrer o sumiço de Megan.
a-garato-do-trem-2
Do trem, Rachel vê Megan na sacada com outro homem e ao testemunhar esse acontecimento, ela fica completamente abalada emocionalmente, como se sua última esperança no amor tivesse sido retirada a força. A ação de Megan, leva Rachel às memórias da descoberta do caso amoroso de Tom com Anna. 
De lá pra cá, Rachel perdeu o emprego, se tornou uma pessoa cada vez mais desnorteada e acredita ser a única culpada pelo fim do seu relacionamento. Sempre atrás de Tom, ela não consegue seguir em frente com a sua vida. Rachel chega a ser um personagem irritante por não saber que rumo tomar. Com o desaparecimento de Megan, Rachel encontra pelo menos um objetivo na sua perdida jornada, até porque ela se sente de alguma forma envolvida no caso, no entanto, não consegue se lembrar dos acontecimentos daquele dia.
O mistério é bem construído, aponta para vários fatores e deixa a maioria dos personagens envolvida na trama, enquanto algumas situações vão sendo reveladas e complicando alguns deles mais e mais. Por outro lado, os relacionamentos não são muito bem explicados, como o de Megan e Mac (Peter Mayer-Klepchick), deixando por conta do espectador imaginá-los na história ou não percebê-los como elementos importantes.
a-garato-do-trem-1
Como leitora do livro, preenchi alguns pontos mal traçados no roteiro para entender as intenções, mas isso não compromete o enredo do longa. O filme A Garota no Trem em si prende o espectador e consegue surpreendê-lo. Vale ressaltar que é um filme sobre gaslighting, termo inglês para a violência emocional por meio de manipulação psicológica, em que o homem leva a mulher desacreditar de si mesma e se ver como incapaz.
Em contraponto das três narradoras, temos personagens masculinos agindo de alguma forma sobre elas, em dinâmicas de poder, e cada uma delas lidando com relacionamentos abusivos. Suspenses com esse tema já foram levantados em Dormindo com o Inimigo (1991) e Risco Duplo (1999). Em A Garota no Trem, o jogo psicológico não é tão bem explorado, o seu fim é mais resoluto e menos retumbante que a adaptação de David Fincher (Garota Exemplar).  

Nota: 3/5

Share this: