Crítica | O Nascimento de Uma Nação

Crítica | O Nascimento de Uma Nação

As palavras têm poder. Quantas vezes já não ouvimos esta frase? O Nascimento de uma Nação (The Birth of a Nation) é um espetáculo visual e uma cativante narrativa sobre como as palavras confortam, emancipam e dão esperança. O poder do discurso está presente e inserido em nosso cotidiano e interpela as nossas decisões e opiniões. O discurso e a oratória são armas poderosas, seja para o bem seja para o mal.

Produzido, dirigido, escrito e protagonizado por Nate Paker, a obra é baseada na figura histórica de Nat Turner, escravo líder de um dos primeiros movimentos abolicionista no sul dos Estados Unidos, no início do século XVII. Ao assistir O Nascimento de uma Nação, percebemos como são necessários cada vez mais filmes sobre o nosso desenvolvimento histórico e a construção de uma sociedade de direito, a fim de que esses valores não se percam.

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Letrado quando criança por caridade, Nat (Nate Paker) aprendeu a ler a bíblia antes de começar a trabalhar na lavoura. Este ensinamento foi a sua redenção, isso porque o senhor de sua fazenda era um pastor, detalhe que faz uma enorme diferença na sua vida. Logo, o escravo estava pregando para os seus companheiros e levando a mensagem dos versículos que lia para os outros, algo quase inimaginável para alguém de sua cor de pele.

A obra de Paker não é apenas um recorte importante da luta racial no continente americano, mas um domínio da linguagem cinematográfica para conversar com o espectador de forma poética e bruta. Com um roteiro que apresenta a jornada do anti-herói desde a infância, a obra exibe os pontos chaves de transformação, a construção do caráter de Nat e sua ignição ao confronto por seus ideais.

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Tudo isso é mostrado através de sequências brilhantes, em que a palavra dá passagem para as imagens encantarem, machucarem e comunicarem uma realidade bárbara, mas não tão distante de nós. A composição de toda a história passa sem máculas, não existem personagens bons e ruim, todos atravessam as suas nuances. As imagens exploram a beleza do amor à selvageria da violência. O impacto é certo.

Difícil não lembrar de 12 Anos de Escravidão (2013), de Steve McQueen. Lá, as atuações eram esplendorosas, vide Chiwetel Ejiofor, Michael Fassbender e Lupita Nyong’o, mas o enredo era cansativo e tinha uma figura salvadora do homem branco sobre as mazelas do protagonista. Aqui, a mão e a atuação de Nate Paker traz uma vivacidade para o filme e um insurgência do homem negro com momentos de pura emoção, revolta e redenção.

O Nascimento de uma Nação leva o espectador a entender a perspectiva de um escravo, que nasce e cresce dentro de um sistema de subjugação, que é a sua única verdade no mundo. Ao pregar em outras fazendas, com a finalidade de acalmar os escravos revoltados, ele percebe o quanto a sua visão era limitada e a maldade infinita, assim como seu próprio dono (Armie Hammer). Ambos descobrem novos horizontes, infelizmente para lados diferentes.

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Cada detalhe da vida de Nat é bem traçado, com o pai (Dwight Henry), com a mãe (Aunjanue Ellis), com a avó (Esther Scott), a descoberta do amor (Aja Naomi King), a amizade (Colman Domingo) e a humilhação (Jackie Earle Haley). Reconhecemos todos esses nomes, essas sensações, mas não temos noção da angústia e do silenciamento. Por isso, O Nascimento de uma Nação é tão necessário.

Fazer revolução é sujar as mãos e abrir precedentes, mesmo que a conta seja de um rebelião de 48h. O movimento simbólico gera esperança e anuncia uma possível transformação. A cena final, ótima aliás, é essa faísca que nasce em um homem e percorrer o mundo. Lembra de Coração Valente (1995)? O Nascimento de uma Nação é filme de Oscar e para assistir na sala escura do cinema. Aqui, julgo apenas a obra e não a pessoa do realizador.

Nota: 4,5 / 5

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